TÓQUIO TEVE QUATRO LUTAS DE TÍTULO MUNDIAL — E MOSTROU AS VIRTUDES E OS EXCESSOS DO BOXE ATUAL

27/09/2026

Frank de Moraes

27 de Setembro de 2026

Inoue confirma superioridade sobre Tenshin, Malajika frustra Tsuboi, Goodman conquista cinturão no Japão e Matsumoto vence — numa noite com dois títulos mundiais propriamente ditos e outros dois interinos

O Japão voltou a mostrar neste domingo, 27 de setembro, por que se transformou em um dos grandes centros do boxe mundial.

O Prime Video Boxing 16, realizado na Toyota Arena Tokyo, reuniu quatro combates anunciados como lutas de campeonato mundial. Dentro dessa abundância de cinturões, porém, convém fazer uma distinção: duas disputas eram por campeonatos mundiais propriamente ditos e outras duas por versões interinas. Mais interinatos.

Uma prática cada vez mais comum das organizações e que torna difícil até para o torcedor habitual acompanhar quem é, afinal, o verdadeiro campeão de cada categoria.

Dentro do ringue, entretanto, o programa justificou a expectativa.

TAKUMA INOUE VOLTA A VENCER TENSHIN — MAS DESTA VEZ VISITA A LONA

Na principal luta da noite, Takuma Inoue (23-2, 5 KOs) defendeu pela segunda vez o cinturão mundial WBC dos galos ao derrotar Tenshin Nasukawa (8-2, 3 KOs) por decisão unânime.

Os cartões foram 114-113 e 116-111 duas vezes.

Foi a segunda vitória de Inoue sobre Tenshin em dez meses, mas a revanche apresentou uma novidade importante. Tenshin derrubou o campeão.

Depois de um início bastante técnico, Inoue foi gradualmente estabelecendo sua superioridade. Usou melhor os ângulos, fez Tenshin errar e respondeu com golpes mais precisos. A impressão era de que o campeão novamente encontrara a solução para o estilo pouco convencional do antigo astro do kickboxing. Até o sétimo round.

Tenshin acelerou repentinamente e acertou uma combinação que colocou Inoue no chão. O campeão levantou-se, foi pressionado e ainda passou por outro momento perigoso antes do final do assalto. A luta mudou emocionalmente naquele instante. Mas não mudou de vencedor.

Inoue recuperou-se, voltou a controlar melhor os espaços e soube neutralizar a tentativa de reação do desafiante nos rounds finais. Talvez tenha sido justamente essa a maior demonstração de maturidade do campeão. Inoue não precisou mostrar apenas técnica. Precisou sobreviver a uma crise real e reorganizar a luta depois dela.

Tenshin, por sua vez, perdeu novamente, mas mostrou evolução. Derrubar Inoue não é um detalhe desprezível. O problema é que, ao final de 12 rounds, o resultado permaneceu o mesmo da primeira luta: Takuma Inoue continua sendo melhor boxeador que Tenshin Nasukawa neste estágio das respectivas carreiras.

TSUBOI DESCOBRE QUE O BOXE PROFISSIONAL NÃO OBEDECE AO CURRÍCULO AMADOR

Talvez a maior surpresa da noite tenha ocorrido entre os super moscas.

O japonês Tomoya Tsuboi, campeão mundial amador em 2021 e uma das grandes esperanças recentes do boxe japonês, tentou conquistar um campeonato mundial praticamente no início da carreira profissional. Não conseguiu.

O sul-africano Ricardo Malajika (18-2, 12 KOs) conquistou o cinturão mundial WBC vago dos super moscas ao derrotá-lo por decisão dividida. Os cartões foram 116-112 e 115-113 para Malajika e 115-113 para Tsuboi.

Tsuboi começou bem. Trabalhou com o jab, encontrou a direita e durante os primeiros rounds parecia capaz de impor sua velocidade e sua formação técnica muito superior no boxe amador.

Mas Malajika não se desorganizou. A partir da segunda metade, o sul-africano passou a encontrar melhor a distância, variou a guarda e tornou a luta progressivamente mais desconfortável para o japonês.

Tsuboi ainda sofreu dois cortes provocados por choques acidentais de cabeça, incluindo um acima do olho direito.

A luta chegou aos cartões e a maioria dos juízes enxergou a recuperação de Malajika como suficiente. Era justamente o tipo de teste que faltava na carreira de Tsuboi. Ele havia avançado pelo boxe profissional em velocidade extraordinária. Sua experiência amadora justificava a aposta, mas nenhuma quantidade de medalhas elimina uma realidade: enfrentar um profissional experiente durante 12 rounds é um esporte diferente.

Tsuboi conheceu sua primeira derrota. E Malajika saiu de Tóquio campeão mundial.

GOODMAN VAI AO JAPÃO E DERROTA NISHIDA

Outra atuação significativa veio do australiano Sam Goodman.

Goodman derrotou o japonês Ryosuke Nishida por decisão unânime e conquistou o cinturão interino IBF dos super galos. Nishida pretendia tornar-se campeão mundial em uma segunda categoria depois de ter reinado entre os galos. Goodman não permitiu.

O australiano começou impondo ritmo, volume de golpes e pressão. Nishida procurou responder com seu boxe de canhoto e principalmente com a esquerda reta, mas frequentemente encontrou Goodman entrando na curta distância e produzindo combinações. Foi uma vitória especialmente importante porque aconteceu no território do adversário.

Goodman chegou ao Japão com uma derrota no cartel e saiu com uma vitória de enorme peso internacional, levando seu registro para 23-1, 8 KOs.

Mas aqui aparece novamente aquela palavra: interino.

Goodman venceu uma excelente luta contra um adversário de primeira linha. Seu mérito esportivo é indiscutível. A necessidade de outro cinturão é uma discussão completamente diferente.

MATSUMOTO VENCE ACOSTA — E OUTRO CINTURÃO INTERINO APARECE

O programa começou com outra disputa provisória. Ryusei Matsumoto (9-0, 4 KOs) derrotou o mexicano Russell Acosta (17-1, 6 KOs) por decisão unânime e conquistou o cinturão interino WBO dos palhas. Os cartões foram 115-113, 116-112 e 118-110.

Matsumoto encontrou uma luta consideravelmente mais complicada do que alguns poderiam imaginar. Seu golpe mais eficiente foi o uppercut de esquerda, mas Acosta mostrou boa capacidade de contragolpe e conseguiu acertar o japonês durante algumas de suas entradas.

Matsumoto alternou distâncias, manteve maior volume e terminou merecendo a decisão, embora o mexicano tenha oferecido resistência durante os 12 rounds.

Há ainda uma peculiaridade administrativa nessa história. O campeão WBO da categoria é Oscar Collazo, que pretendia subir aos moscas. A WBO havia criado a disputa interina vinculada à situação de Collazo. Posteriormente, uma lesão de Collazo cancelou sua luta programada na divisão superior, deixando novamente evidente como decisões administrativas podem transformar rapidamente a situação dos cinturões.

Matsumoto fez sua parte. Venceu quem colocaram diante dele. A confusão não pertence aos boxeadores. Pertence ao sistema.

DOIS CAMPEÕES, DOIS INTERINOS

O programa de Tóquio pode ser resumido assim:

WBC galos: Takuma Inoue derrotou Tenshin Nasukawa — título mundial.

WBC supermoscas: Ricardo Malajika derrotou Tomoya Tsuboi — título mundial vago.

IBF supergalos: Sam Goodman derrotou Ryosuke Nishida — título mundial interino.

WBO mínimos: Ryusei Matsumoto derrotou Russell Acosta — título mundial interino.

Quatro lutas de 12 rounds. Quatro cinturões entregues ou defendidos. Mas somente duas delas envolvendo o campeonato mundial principal da respectiva organização.

Não se trata de diminuir Goodman ou Matsumoto. Muito pelo contrário. Os dois venceram adversários qualificados e fizeram exatamente aquilo que se exige de um boxeador: subiram ao ringue e ganharam. O problema está na estrutura.

Quando campeão, super campeão, campeão interino, campeão em recesso e outras classificações passam a coexistir, o cinturão deixa progressivamente de responder à pergunta mais elementar do esporte: quem é o campeão?

O JAPÃO CONTINUA SENDO UMA POTÊNCIA

Há também outra conclusão importante. O Japão colocou quatro de seus principais nomes em combates de campeonato na mesma noite. Venceu dois e perdeu dois. Não houve proteção artificial aos atletas da casa.

Tsuboi enfrentou Malajika praticamente no início da carreira profissional e perdeu.

Nishida enfrentou Goodman e perdeu.

Matsumoto teve dificuldades contra Acosta e venceu.

E Takuma Inoue foi derrubado por Tenshin antes de conseguir defender o título.

É assim que se constrói um grande mercado de boxe: grandes lutadores enfrentando adversários capazes de derrotá-los.

O Prime Video Boxing 16 não terminou com a festa japonesa que os promotores talvez imaginassem. Terminou melhor. Terminou com quatro lutas competitivas, dois estrangeiros conquistando cinturões em Tóquio e um campeão mundial, Takuma Inoue, obrigado a levantar-se do chão para conservar o seu. Foi uma grande noite de boxe.

Quanto aos interinatos? Esses continuam sobrando.

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