SCHOFIELD: O NOVO CAMPEÃO DOS LEVES PRECISA CORRIGIR ALGUNS DEFEITOS

Por Frank de Moraes — Boletim do Boxe, 12 de outubro de 2026
Floyd "Kid Austin" Schofield conquistou seu primeiro título mundial no último sábado, 10 de outubro, em Chicago. Aos 24 anos, derrotou o canadense Lucas Bahdi por decisão unânime, após doze assaltos, e ficou com o cinturão vago dos leves da Associação Mundial de Boxe (WBA).
Foi uma vitória importante, merecida e conquistada diante de um adversário de excelente qualidade, mas seria um equívoco interpretar o resultado como uma demonstração de superioridade absoluta.
Schofield venceu porque foi mais rápido, trabalhou melhor a distância durante boa parte do combate e conseguiu construir vantagem nos cartões. Entretanto, também mostrou deficiências defensivas, precipitação ofensiva e dificuldades para administrar os momentos em que o adversário aumentava a pressão.
Bahdi, por sua vez, perdeu a invencibilidade, mas saiu do ringue com sua reputação fortalecida.
O americano conquistou o cinturão. O canadense conquistou respeito.
A velocidade contra a potência
O confronto colocava frente a frente dois invictos com características diferentes.
Schofield apresentava 19 vitórias, 13 delas por nocaute. Bahdi chegava com 20 triunfos, incluindo 15 nocautes.
O americano era mais veloz, movimentava-se melhor e possuía maior variedade de combinações.
O canadense, aos 32 anos, tinha nas mãos pesadas sua principal arma. Não precisava vencer todos os minutos de um assalto para representar perigo. Bastava encontrar uma abertura.
Essa diferença apareceu desde os primeiros rounds. Schofield procurava entrar e sair da distância, aproveitando sua velocidade. Bahdi trabalhava para encurtar o espaço e alcançar o adversário com golpes contundentes, principalmente a direita.
O jovem americano descobriu rapidamente que não poderia permanecer parado diante do canadense.
O terceiro assalto parecia anunciar uma vitória tranquila
No terceiro round, Schofield conseguiu seu momento mais expressivo. Uma sequência ofensiva terminou com um gancho de esquerda que derrubou Bahdi, levando-o contra as cordas.
O canadense levantou-se e resistiu.
Naquele instante, parecia que a velocidade do americano acabaria impondo uma superioridade incontestável.
Mas Bahdi demonstrou duas qualidades fundamentais: resistência e serenidade. Não abandonou seu plano de luta. Continuou procurando os espaços para a direita e passou a obrigar Schofield a respeitar sua potência.
O combate que parecia caminhar para uma exibição do favorito transformou-se numa disputa muito mais difícil.
O primeiro defeito: atacar sem proteger a saída
Schofield possui mãos rápidas e consegue lançar combinações perigosas. Entretanto, em diversas ocasiões, terminou seus ataques numa posição que permitia a resposta de Bahdi. Esse foi um dos problemas mais evidentes de sua apresentação.
A velocidade é uma excelente arma ofensiva, mas não substitui a disciplina defensiva.
Contra um adversário menos potente, determinados erros podem passar despercebidos. Contra Bahdi, cada descuido representava a possibilidade de receber um golpe capaz de modificar a luta.
O canadense soube explorar essas oportunidades. Seus golpes no corpo também contribuíram para dificultar a movimentação do americano.
Schofield continuou pontuando, mas já não podia lutar com a liberdade demonstrada nos primeiros minutos.
O segundo defeito: aceitar trocas desnecessárias
Outro aspecto preocupante foi a disposição de Schofield para entrar em disputas de potência.
Seu maior diferencial era a velocidade.
Bahdi, entretanto, possuía golpes mais pesados.
Por que aceitar uma luta no terreno mais favorável ao adversário?
Em determinados momentos, Schofield pareceu querer demonstrar que também poderia vencer pela força. Essa atitude tornou o combate mais emocionante, mas não necessariamente mais inteligente.
O próprio campeão reconheceu, depois da luta, que precisou mudar de estratégia ao perceber a potência de Bahdi. Passou a trabalhar mais sobre as pernas e a seguir as orientações de seu pai e treinador, Floyd Schofield Sr. Foi uma decisão acertada.
O fato de ter precisado corrigir sua postura durante o combate demonstra que ainda existe espaço para amadurecimento tático.
O nono assalto: uma queda que não entrou na contagem
Antes dos dois assaltos finais, aconteceu um episódio que merece atenção.
No nono round, Bahdi acertou uma direita que fez o joelho de Schofield tocar a lona, segundo imagens e relatos da transmissão. O árbitro não assinalou a queda.
A decisão provocou controvérsia porque, caso fosse considerada legítima, poderia alterar a pontuação daquele assalto e aproximar o canadense nos cartões.
Não se pode afirmar que esse episódio teria modificado o vencedor. Schofield havia construído vantagem importante, mas é mais um elemento que demonstra quanto Bahdi conseguiu incomodar o futuro campeão.
O 11º assalto: Schofield vai à lona
No 11º assalto, quando Schofield parecia encaminhar-se para a vitória, Bahdi voltou a colocar o resultado sob tensão. O canadense acertou uma direita e Schofield caiu. O árbitro abriu contagem, registrando oficialmente uma queda.
As imagens, entretanto, revelaram uma circunstância importante: o pé de Bahdi estava sobre o pé do americano no momento do golpe. Por isso, comentaristas questionaram se a queda deveria realmente ter sido assinalada.
Há, portanto, duas verdades que precisam ser distinguidas. Oficialmente, Bahdi conseguiu um knockdown. Tecnicamente, a legitimidade da queda é discutível.
O episódio não diminui o mérito do canadense. Bahdi vinha procurando o golpe decisivo e continuava representando perigo.
Schofield, por sua vez, passou a se movimentar e a recorrer às amarrações para impedir que o adversário aproveitasse o momento. O campeão em formação precisava, antes de tudo, sobreviver ao assalto.
O 12º assalto: Bahdi não desistiu
O último round confirmou o espírito combativo do canadense. Bahdi sabia que precisava de algo extraordinário para reverter a situação. Continuou avançando, procurando encurtar a distância e atingir Schofield com golpes de potência.
O americano, por sua vez, precisava evitar riscos. Sua equipe insistia para que utilizasse a movimentação e não aceitasse trocas desnecessárias.
Nos segundos finais, Bahdi ainda conseguiu acertar uma direita, respondida por um golpe de esquerda de Schofield. Foi um encerramento tenso, embora o canadense não tenha conseguido produzir o nocaute de que necessitava.
A coragem de Bahdi merece reconhecimento. Mas também é necessário registrar que Schofield conseguiu responder e completar o combate sem sofrer novos danos decisivos.
A impressão deixada pelos dois últimos rounds foi clara: Schofield possuía vantagem suficiente para vencer, mas não havia conseguido neutralizar completamente seu adversário.
Os cartões: uma vitória justa, mas com exagero
CHICAGO — 10 DE OUTUBRO DE 2026
Juiz
Schofield
Bahdi
Dave DeJonge
116
110
Steve Weisfeld
115
111
Alfredo Gallardo
119
108
Cartões oficiais divulgados após a luta.
A vitória de Schofield é defensável. O americano conquistou a maior parte dos assaltos graças à velocidade, à movimentação e à precisão de suas combinações.
Entretanto, o cartão de 119–108 parece excessivamente amplo.
Bahdi conseguiu momentos importantes, acertou golpes contundentes e terminou o combate pressionando o vencedor.
A pontuação de 115–111 representa, a meu ver, uma leitura mais próxima da competitividade apresentada no ringue.
O próprio fato de os juízes terem divergido sobre o último assalto reforça a importância de reconhecer a resistência do canadense.
Bahdi merece outra oportunidade mundial
Uma derrota não transforma automaticamente um grande adversário num boxeador de segunda categoria.
Bahdi demonstrou que possui recursos para competir entre os principais leves do mundo. Seu problema foi não conseguir impor pressão suficiente durante todos os assaltos. Em determinados momentos, permitiu que Schofield recuperasse a distância e pontuasse sem grande oposição. Mas, quando conseguiu encurtar o espaço, mostrou-se perigosíssimo.
Há também uma qualidade que não aparece nas estatísticas: sua capacidade de continuar procurando a vitória depois de sofrer uma queda e perder vários rounds. Bahdi não se conformou com a derrota por pontos. Procurou o nocaute até o último minuto. Não conquistou o cinturão, mas deixou Chicago como um desafiante que ninguém deveria subestimar.
O que Schofield precisa corrigir?
O novo campeão possui talento evidente. Entretanto, sua equipe terá trabalho.
Há quatro aspectos que merecem atenção:
1. Defesa após as combinações. Precisa sair da distância com maior proteção, especialmente contra adversários que trabalham bem o contragolpe.
2. Disciplina tática. Não deve transformar uma luta que pode vencer pela velocidade numa disputa de potência.
3. Controle da pressão. Quando encurralado, precisa encontrar soluções que não dependam exclusivamente de amarrações ou deslocamentos apressados.
4. Administração dos rounds finais. Um campeão que construiu vantagem não pode permitir que o adversário encontre tantas oportunidades de modificar o combate na reta decisiva.
Nada disso significa que Schofield seja um campeão fraco. Pelo contrário. Aos 24 anos, ainda possui tempo para evoluir. E uma luta difícil pode ensinar mais do que vários nocautes rápidos.
A vitória sobre Bahdi talvez tenha sido especialmente valiosa porque revelou ao americano os limites de sua própria capacidade.
O futuro dos leves
Schofield conquistou um cinturão numa das categorias mais interessantes do boxe.
Entre os nomes que poderão cruzar seu caminho estão William Zepeda e Abdullah Mason, campeões de outras organizações.
São adversários com características diferentes. Zepeda representa pressão, volume de golpes e disposição para lutar em ritmo intenso. Mason oferece juventude, técnica e recursos ofensivos variados.
Antes de enfrentar qualquer um deles, Schofield precisa compreender uma lição fundamental deixada por Chicago: a velocidade pode conquistar assaltos, mas não elimina a necessidade de defender-se. Se repetir determinados erros contra adversários ainda mais completos, poderá pagar um preço elevado.
Conclusão — Dois vencedores, por motivos diferentes
Floyd Schofield venceu a luta e conquistou o título mundial dos leves da WBA. É uma realização extraordinária para um boxeador de apenas 24 anos.
Lucas Bahdi merece dividir o reconhecimento pela qualidade do espetáculo. O canadense caiu, levantou-se, resistiu, encontrou oportunidades e manteve o campeão sob ameaça até os instantes finais. Não foi um adversário escolhido apenas para compor o cartel do americano. Foi um desafiante legítimo, que chegou invicto, lutou com coragem e mostrou recursos suficientes para voltar a disputar um título mundial.
Schofield deixou Chicago com um cinturão e várias lições.
Bahdi deixou Chicago sem a invencibilidade, mas com a certeza de que pode competir em alto nível.
O novo campeão tem talento para construir uma grande carreira. Para isso, precisará corrigir seus defeitos. E o derrotado demonstrou algo igualmente importante: Lucas Bahdi é um grande adversário, não apenas um nome na relação de vitórias de Schofield.
Frank de Moraes Boletim do Boxe — 12 de outubro de 2026
Fontes consultadas
Most Valuable Promotions — Resultado oficial e cartões.
The Sporting Tribune — Relato detalhado dos doze assaltos.
Bleacher Report — Cobertura round a round.
WBA — Análise dos cartões dos juízes.
