LOMACHENKO ESTÁ DE VOLTA: AOS 38 ANOS, O SONHO DO TÍTULO INDISCUTÍVEL

Por Frank de Moraes | 29 de outubro de 2026
Há boxeadores que conquistam títulos, outros que acumulam vitórias e alguns, muito raros, que modificam a maneira como o esporte é compreendido. Vasiliy Lomachenko pertence a essa última categoria. Aos 38 anos, o ucraniano volta a aparecer nos planos da Top Rank para um possível retorno aos ringues, reacendendo a esperança de uma derradeira campanha em busca da supremacia mundial. O tempo passou, adversários mais jovens ocuparam posições importantes e a velocidade que transformou Lomachenko em fenômeno já não pode ser considerada imune ao envelhecimento. Mas sua inteligência técnica permanece como uma referência para quem procura compreender a arte do boxe.
O nome de Lomachenko voltou ao noticiário depois de declarações atribuídas ao promotor Bob Arum sobre a possibilidade de organizar um combate contra o filipino Charly Suarez, em fevereiro de 2027. A proposta seria abrir caminho para uma eventual disputa com O'Shaquie Foster, campeão mundial dos super penas.
Por enquanto, trata-se de uma possibilidade, não de um contrato anunciado. A distinção é importante porque qualquer retorno exigiria uma decisão pessoal do ucraniano, além de preparação física adequada e entendimento entre os envolvidos.
Mas a simples perspectiva de vê-lo novamente em ação convida a revisitar uma carreira extraordinária.
A história de Lomachenko começa muito antes de sua estreia profissional. Nascido em Bilhorod-Dnistrovskyi, na Ucrânia, em 17 de fevereiro de 1988, ele foi preparado desde a infância para compreender o boxe como uma combinação de movimento, equilíbrio e inteligência.
Seu pai e treinador, Anatoly Lomachenko, desenvolveu um método de preparação incomum. Durante parte da formação do filho, dedicou atenção especial à dança tradicional ucraniana, à coordenação motora e ao domínio dos movimentos dos pés. O objetivo era formar um atleta capaz de controlar o espaço antes mesmo de lançar os golpes.
Essa preparação ajudou a construir uma das características mais extraordinárias de sua carreira: a capacidade de mudar de ângulo sem perder o equilíbrio ou a posição necessária para atacar.
Enquanto muitos boxeadores procuram vencer pela força ou pela velocidade, Lomachenko frequentemente parecia vencer pela geometria.
Seus adversários lançavam golpes contra um homem que já não estava na posição esperada. Quando tentavam corrigir o movimento, descobriam que o ucraniano havia ocupado outro ângulo e preparado uma nova combinação.
Não por acaso, recebeu o apelido de Hi-Tech.
Sua trajetória amadora foi praticamente incomparável. Conquistou duas medalhas de ouro olímpicas, em Pequim, em 2008, e Londres, em 2012, além de dois títulos mundiais amadores. O retrospecto de 396 vitórias e apenas uma derrota constitui uma das marcas mais impressionantes da história da modalidade.
Ao ingressar no profissionalismo, em 2013, não demonstrou interesse em percorrer o caminho tradicional de adversários cuidadosamente selecionados.
Em sua segunda apresentação, enfrentou Orlando Salido pelo campeonato mundial dos penas e sofreu uma derrota por decisão dividida. Foi um resultado que expôs as dificuldades da adaptação ao profissionalismo, especialmente diante de um adversário experiente, fisicamente forte e disposto a utilizar todos os recursos disponíveis.
Mas Lomachenko não recuou.
Em sua terceira luta profissional, derrotou Gary Russell Jr. e conquistou o cinturão WBO dos penas, igualando o recorde de menor número de combates necessários para alcançar um título mundial.
Posteriormente, conquistaria cinturões dos super penas e leves, transformando-se em campeão mundial de três categorias.
A rapidez dessa ascensão não foi seu único mérito. O ucraniano apresentou ao público uma forma de boxear que parecia combinar a precisão da escola olímpica com a criatividade dos grandes improvisadores.
Suas sequências de golpes eram frequentemente precedidas por movimentos destinados a provocar uma reação defensiva. Lomachenko não atacava apenas o corpo do adversário: atacava suas decisões.
Fintas, mudanças de nível, deslocamentos laterais e golpes lançados de ângulos inesperados constituíam partes de um mesmo sistema.
Em determinadas apresentações, a superioridade técnica foi tão acentuada que os adversários preferiram abandonar o combate antes do limite. Guillermo Rigondeaux, Nicholas Walters e Jason Sosa estão entre os nomes que experimentaram a dificuldade de encontrar respostas para seu estilo.
Entretanto, a carreira do ucraniano também conheceu momentos de frustração.
Em outubro de 2020, perdeu para Teófimo López, deixando escapar a oportunidade de conquistar o campeonato indiscutível dos leves.
Em maio de 2023, enfrentou Devin Haney em outra tentativa de alcançar esse objetivo. Depois de 12 assaltos tecnicamente disputados, os juízes concederam a vitória ao americano por decisão unânime.
O resultado provocou controvérsia. Muitos observadores consideraram que Lomachenko havia feito o suficiente para vencer, enquanto outros entenderam que Haney conseguira construir uma vantagem nos primeiros assaltos.
Independentemente da interpretação, o fato é que o sonho do título indiscutível permaneceu incompleto.
Em maio de 2024, Lomachenko derrotou George Kambosos Jr. por interrupção no 11º assalto, conquistando o cinturão IBF dos leves. Foi sua última apresentação profissional até agora.
Em junho de 2025, anunciou oficialmente a aposentadoria, encerrando aparentemente uma carreira de 18 vitórias, três derrotas e 12 nocautes. A Top Rank publicou uma homenagem à sua trajetória, reconhecendo-o como um campeão de geração.
Parecia o encerramento definitivo.
Mas o desejo de conquistar o campeonato indiscutível continuou vivo.
Em maio de 2026, surgiram as primeiras informações sobre a possibilidade de seu retorno. O próprio Lomachenko confirmou posteriormente que desejava tentar mais uma vez alcançar o objetivo que perseguira durante toda a carreira profissional.
Aos 38 anos, compreendia que o tempo disponível era limitado.
Durante a transmissão da luta entre Foster e Emanuel Navarrete, no último sábado, o ucraniano explicou que não desejava esperar até os 40 ou 41 anos para realizar uma última tentativa. Seu objetivo continuava sendo reunir todos os cinturões de uma categoria.
A divisão escolhida é a dos super penas, limitada a 130 libras, aproximadamente 59 quilos.
A decisão possui lógica esportiva. Lomachenko já competiu nessa categoria e poderá encontrar vantagens físicas em relação à divisão dos leves, onde enfrentou adversários naturalmente maiores.
Mas o retorno ao peso anterior não representa uma solução automática. A redução de peso aos 38 anos exige preparação cuidadosa, especialmente depois de um período prolongado de inatividade.
A primeira etapa do projeto deverá ser uma luta contra Charly Suarez.
O filipino apresenta um cartel invicto de 19 vitórias, com 13 nocautes, e ocupa posição importante nos rankings dos superpenas. Não é um adversário escolhido apenas para permitir uma reaparição tranquila.
Suarez possui experiência amadora, boa movimentação e capacidade para sustentar um ritmo competitivo elevado. Seu confronto com Emanuel Navarrete, inicialmente encerrado por decisão técnica, teve o resultado posteriormente alterado para no contest depois de uma revisão sobre a origem de um corte sofrido pelo mexicano.
A controvérsia demonstrou que Suarez havia conseguido oferecer dificuldades reais a um campeão experiente.
Para Lomachenko, portanto, o primeiro compromisso representaria um teste significativo.
Seria necessário descobrir se sua movimentação conserva a velocidade necessária para produzir ângulos ofensivos, se o condicionamento físico permite sustentar 12 assaltos e se os reflexos defensivos continuam suficientemente rápidos.
A técnica pode sobreviver durante muitos anos. A velocidade de reação, entretanto, está sujeita às limitações naturais da idade.
Um pequeno atraso na movimentação dos pés pode transformar uma esquiva perfeita em um golpe recebido. Uma combinação que anteriormente surpreendia o adversário pode oferecer tempo para uma resposta.
É precisamente essa diferença entre o conhecimento técnico e a execução física que torna o retorno tão interessante.
Bob Arum afirmou que Lomachenko vem treinando em Porto Rico e demonstra boa condição física. O promotor espera organizar o combate contra Suarez em fevereiro de 2027 e, caso o ucraniano vença, encaminhar uma disputa com O'Shaquie Foster por volta da metade do ano.
Foster representa um desafio particularmente complicado.
No último sábado, em San Antonio, o americano derrotou Emanuel Navarrete por decisão unânime, reunindo os cinturões WBC, WBO e IBF dos superpenas, além do reconhecimento da revista The Ring.
A apresentação foi tecnicamente impressionante. Foster controlou a distância, utilizou contragolpes precisos e conseguiu derrubar Navarrete duas vezes no 12º assalto. Os cartões registraram 118-108, 118-108 e 115-111.
Para Lomachenko, enfrentar Foster significaria encontrar um adversário que também domina o controle espacial.
O americano não depende de uma pressão ofensiva contínua. Prefere observar, antecipar e explorar os erros do oponente. Sua defesa é organizada e sua capacidade de contragolpear exige cuidado constante.
Seria, portanto, um confronto de grande sofisticação técnica.
Lomachenko procuraria criar ângulos e acelerar as combinações depois de provocar reações defensivas. Foster tentaria neutralizar esses movimentos, mantendo a distância e explorando os momentos em que o ucraniano precisasse se aproximar.
A experiência de Lomachenko seria uma vantagem importante, mas a juventude relativa e a atividade recente de Foster também precisariam ser consideradas.
O americano tem 33 anos e atravessa um dos melhores momentos de sua carreira.
Há ainda um detalhe regulamentar decisivo: Foster possui três dos quatro principais cinturões mundiais dos superpenas. O título WBA permanece fora de sua coleção.
Portanto, uma vitória de Lomachenko sobre Foster não significaria automaticamente a conquista do campeonato indiscutível. Seria necessário reunir também o cinturão restante, dependendo da situação da categoria no momento da disputa.
O projeto de Lomachenko exige, assim, mais do que duas vitórias.
Ele precisaria superar Suarez, derrotar Foster e encontrar uma solução para o título WBA.
Tudo isso antes que a passagem do tempo comprometa definitivamente sua capacidade competitiva.
O desafio é enorme.
Mas talvez seja justamente essa dificuldade que explica o retorno.
Lomachenko não parece interessado em disputar combates de despedida contra adversários modestos. Seu objetivo declarado é conquistar aquilo que escapou em duas ocasiões importantes de sua carreira.
Aos 38 anos, não precisa provar que foi um grande boxeador. Suas medalhas olímpicas, seus títulos mundiais e sua contribuição técnica já garantiram seu lugar na história.
O que procura agora é algo diferente: completar uma obra que considera inacabada.
Existe uma beleza particular nessa ambição.
O boxe frequentemente apresenta campeões que prolongam suas carreiras por razões financeiras ou pela dificuldade de abandonar os aplausos. No caso de Lomachenko, a motivação declarada é um objetivo esportivo específico, perseguido desde sua entrada no profissionalismo.
Isso não significa que o retorno seja necessariamente a melhor decisão física ou profissional. A idade, o período de inatividade e a qualidade dos adversários representam riscos concretos.
Mas explica por que sua reaparição desperta tanto interesse.
O público deseja descobrir se ainda existe espaço, no boxe contemporâneo, para aquele estilo que parecia transformar o ringue em um tabuleiro de xadrez.
Lomachenko sempre foi um mestre na arte de obrigar o adversário a pensar antes de agir. Sua capacidade de criar problemas técnicos, alterar posições e antecipar respostas tornou-se referência para treinadores e estudiosos.
Agora, porém, enfrenta um adversário que não pode ser confundido por fintas ou deslocamentos. O tempo.
Contra ele, não existem contragolpes, mudanças de ângulo ou combinações capazes de garantir a vitória.
Há apenas preparação, disciplina e a esperança de conservar, por mais alguns combates, a capacidade de executar aquilo que a mente continua compreendendo perfeitamente.
Lomachenko não retorna para descobrir se foi um grande campeão. Isso já está resolvido. Retorna para tentar conquistar o único título que ainda considera ausente de sua extraordinária coleção: o de campeão mundial indiscutível.
O caminho poderá começar contra Charly Suarez, passar por O'Shaquie Foster e exigir uma última unificação.
Nada está garantido. Mas, se o ucraniano conseguir transformar essa ambição em realidade, terá acrescentado um capítulo extraordinário a uma carreira que já parecia completa.
E, se não conseguir, sua importância histórica permanecerá intacta.
Porque o legado de Vasiliy Lomachenko não depende apenas dos cinturões que conquistou.
Depende também de tudo aquilo que ensinou sobre a inteligência, o movimento e a beleza técnica do boxe.
Aos 38 anos, o mestre está disposto a voltar à escola que ajudou a transformar. Desta vez, porém, será ele quem terá de prestar o exame mais difícil de sua carreira.
Apuração editorial: The Ring, reportagens de maio e outubro de 2026; Top Rank, comunicados de 2025 e 24/10/2026; Bad Left Hook, 26/10/2026; World Boxing Council, 25/10/2026.
