JOHNNY FISHER VENCEU. MAS JÁ ESTÁ PRONTO PARA SUBIR DE NÍVEL?

29/09/2026

Lilian De Lucca

29 de Setembro de 2026

A decisão majoritária sobre Michael Pirotton recolocou o "Romford Bull" no caminho das grandes lutas britânicas. O problema é que a própria vitória mostrou por que escolher o próximo adversário poderá ser a decisão mais importante de sua carreira.

Johnny Fisher saiu da Copper Box Arena com aquilo que precisava. Uma vitória. Não saiu, entretanto, com aquilo que talvez desejasse. Uma certeza.

Depois de dez rounds contra Michael Pirotton, o peso-pesado inglês teve sua mão levantada por decisão majoritária. Os cartões marcaram 98-92, 96-95 e 95-95. No papel, Fisher avançou para um cartel de 15-1.

Na prática, a luta produziu uma pergunta inevitável: ele já está preparado para enfrentar os pesos-pesados do escalão seguinte? A resposta talvez determine o futuro de uma das figuras mais populares da nova geração britânica.

A VITÓRIA QUE REVELOU PROBLEMAS

Fisher começou contra Pirotton exatamente como se esperava. Pressão. Força física. Golpes pesados. Iniciativa.

O belga sofreu um corte e durante algum tempo parecia destinado a tornar-se mais uma vítima do poder ofensivo do inglês. Mas não caiu. E foi justamente aí que começou a verdadeira luta.

Quando Pirotton resistiu aos primeiros ataques e obrigou Fisher a trabalhar durante muitos minutos, começaram a aparecer sinais conhecidos. O ritmo caiu. A movimentação diminuiu. Os golpes perderam velocidade. A respiração ficou pesada.

Pirotton percebeu e passou a atacar. Nos dois últimos rounds, os três jurados deram vantagem ao belga.

Fisher ainda conseguiu machucá-lo com uma direita no décimo, mostrando que sua potência permanece perigosa mesmo quando está cansado. Mas terminou esgotado.

Depois do combate, permaneceu sentado e recebeu oxigênio. Não foi exatamente a imagem de um peso-pesado pronto para enfrentar imediatamente a elite.

O PROBLEMA NÃO É POTÊNCIA

Fisher bate forte. Isso nunca esteve realmente em discussão. Seu tamanho, agressividade e direita são armas legítimas. Quando consegue colocar o adversário sob pressão e estabelecer seu ritmo, Fisher pode tornar uma luta extremamente desconfortável.

O problema aparece quando o adversário sobrevive à primeira tempestade. Pirotton mostrou isso. Dave Allen já havia mostrado algo ainda mais sério.

Fisher precisa encontrar uma maneira de conservar energia sem abandonar aquilo que o torna perigoso. Um peso-pesado não pode lutar todos os rounds como se estivesse tentando terminar o combate naquele instante. Contra adversários melhores, cada ataque desperdiçado cobra juros mais tarde.

A SOMBRA DE DAVE ALLEN

É impossível avaliar Fisher sem voltar às duas lutas contra Dave Allen. Na primeira, Fisher venceu por decisão dividida. Foi uma decisão controversa. Allen acreditou que havia vencido. Muitos observadores concordaram.

A revanche eliminou qualquer discussão. Allen derrubou Fisher e venceu por TKO no quinto round. Foi a primeira derrota profissional do Romford Bull. Mas talvez tenha sido também sua primeira grande aula. Até aquele momento, Fisher havia construído boa parte da carreira como um destruidor.

Allen mostrou que existe enorme diferença entre nocautear adversários preparados para serem vencidos e controlar um peso-pesado experiente que sabe sobreviver, contra-atacar e esperar o momento correto. A vitória sobre Pirotton deveria mostrar evolução depois daquela experiência. Mostrou alguma. Mas também mostrou que determinados problemas continuam presentes.

E AGORA APARECE DILLIAN WHYTE

É aqui que a situação fica particularmente interessante. Dillian Whyte já demonstrou interesse numa luta contra Fisher. Comercialmente, faz todo sentido. Dois pesos-pesados britânicos. Dois nomes conhecidos. Um veterano contra um lutador mais jovem. Uma luta fácil de promover e provavelmente capaz de atrair excelente público.

Esportivamente, porém, Fisher deveria pensar cuidadosamente. Whyte já não é o peso-pesado que disputou o título mundial contra Tyson Fury. O tempo passou. Vieram derrotas. Vieram problemas físicos. Sua posição no cenário internacional diminuiu. Mas a experiência não desaparece da mesma maneira que velocidade.

Whyte sabe lutar cansado. Sabe trabalhar o corpo. Sabe usar clinches. Sabe transformar uma luta tecnicamente imperfeita numa batalha física. E possui um golpe que deveria preocupar especialmente Fisher: o gancho de esquerda.

Para um lutador que ainda apresenta vulnerabilidades defensivas quando diminui o ritmo, enfrentar alguém com a experiência e a potência de Whyte seria um teste bastante sério.

O PERIGO DA LUTA "PERFEITA"

Existe uma armadilha comum no boxe. Uma luta parece perfeita comercialmente antes de ser perfeita esportivamente. Whyte x Fisher seria vendável amanhã. Isso não significa necessariamente que deveria acontecer amanhã.

Fisher tem apenas 27 anos. Não existe obrigação de acelerar.

Pesos-pesados amadurecem frequentemente mais tarde do que lutadores das categorias menores. Fisher ainda pode melhorar sua defesa. Pode aprender a variar o ritmo. Pode desenvolver melhor o jab. Pode aprender a vencer rounds sem gastar tanta energia. Principalmente, pode aprender que nem todo golpe precisa carregar intenção de nocaute.

Essas coisas dificilmente aparecem quando alguém vence em dois rounds. Pirotton obrigou Fisher a enxergá-las.

E DEONTAY WILDER?

Fisher também já mencionou um nome muito maior. Deontay Wilder. Aí a conversa muda completamente.

Mesmo considerando a idade e o desgaste do antigo campeão WBC, colocar Fisher atualmente diante de Wilder significaria aceitar um risco extraordinário. Porque existe uma característica de Fisher que combina perigosamente com a principal virtude do americano.

Fisher pode ser atingido. Wilder precisa de pouquíssimas oportunidades para decidir uma luta.

Seria uma promoção enorme. Talvez dinheiro enorme. Mas esportivamente parece um salto muito maior do que aquele sugerido pela vitória sobre Pirotton.

Antes de pensar em Wilder, Fisher precisa mostrar que consegue controlar durante dez ou 12 rounds um peso-pesado capaz de pressioná-lo.

A TERCEIRA LUTA COM ALLEN?

Existe ainda uma alternativa quase inevitável. Dave Allen.

A história está empatada em resultados oficiais: Fisher 1-1 Allen. Mas emocionalmente não parece empatada. A primeira vitória de Fisher foi discutida. A segunda luta terminou com Allen derrubando e parando Fisher.

Uma terceira resolveria a rivalidade. Seria comercialmente forte. E provavelmente ensinaria muito mais sobre Fisher do que outro adversário escolhido apenas para acrescentar uma vitória ao cartel. Mas também seria perigosa.

Fisher já sabe disso melhor do que ninguém.

QUAL É O PRÓXIMO DEGRAU?

Talvez a discussão esteja sendo apresentada de maneira errada. A pergunta não deveria ser: "Qual grande nome Fisher pode enfrentar?" Deveria ser: "Qual adversário pode prepará-lo para enfrentar os grandes nomes?" Há uma diferença enorme.

Fisher precisa de alguém suficientemente bom para obrigá-lo a pensar durante dez rounds, mas não necessariamente de um adversário cuja experiência ou potência possa transformar qualquer erro numa derrota devastadora. Mais uma ou duas lutas desse tipo poderiam valer muito.

Especialmente se nelas Fisher demonstrar evolução justamente onde Pirotton o colocou em dificuldades.

O QUE PRECISAMOS VER

Na próxima luta, eu observaria quatro coisas.

Primeiro, o jab. Fisher precisa utilizá-lo não apenas para preparar a direita, mas para controlar a distância e ganhar rounds.

Segundo, o ritmo. Não pode gastar combustível de oito rounds nos quatro primeiros.

Terceiro, a defesa quando cansado. É justamente quando diminui fisicamente que seus movimentos se tornam previsíveis e o adversário encontra oportunidades.

E quarto, talvez o mais importante: paciência.

Um peso-pesado que possui potência não precisa demonstrá-la a cada segundo. Às vezes a ameaça do golpe é tão importante quanto o golpe.

FISHER NÃO PRECISA CORRER

Johnny Fisher é uma atração. Tem público. Tem personalidade. Tem tamanho. Tem potência. E agora tem também uma derrota importante no currículo e algumas lutas que lhe ensinaram que o boxe profissional não é uma sucessão de nocautes. Isso pode ajudá-lo.

A vitória sobre Michael Pirotton não deveria ser interpretada como fracasso simplesmente porque foi difícil. Pode ter sido exatamente a luta que Fisher precisava. O erro seria interpretar a vitória como prova de que ele já está preparado para qualquer adversário. Não está. E não precisa estar.

Dillian Whyte seria uma luta fascinante. Dave Allen III teria enorme lógica esportiva e comercial. Deontay Wilder seria um salto perigosíssimo.

Mas talvez exista uma quarta opção menos emocionante para os cartazes e mais importante para a carreira: mais um adversário experiente.

Mais dez rounds. Mais uma oportunidade de aprender a administrar energia, trabalhar com o jab e vencer sem precisar destruir.

Fisher venceu Pirotton. Agora precisa mostrar que aprendeu com ele. Porque subir de nível no boxe não significa simplesmente enfrentar adversários melhores. Significa estar preparado para vencê-los.


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