JOHNNY FISHER: O “ROMFORD BULL” PRECISA PROVAR QUE É MAIS DO QUE POPULARIDADE

21/09/2026

Frank de Moraes

21 de Setembro de 2026

Johnny Fisher leva multidões aos ginásios, tem poder de nocaute, personalidade e uma torcida que transformou o "Romford Bull" em atração do boxe britânico. Mas a derrota para Dave Allen deixou uma pergunta que ainda precisa ser respondida: até onde vai o lutador quando termina o espetáculo?

Johnny Fisher já conseguiu algo que muitos boxeadores tecnicamente excelentes jamais conseguem durante toda a carreira. Ele vende ingressos. Mobiliza torcedores. Produz barulho. Transformou o apelido "Romford Bull" em marca. E construiu, ao lado do pai, o carismático "Big John", uma das histórias promocionais mais eficientes do boxe britânico recente.

No próximo sábado, 26 de setembro, Fisher voltará ao Copper Box Arena, em Londres, para enfrentar o belga Michael Pirotton no evento principal do Zuffa Boxing 11. Será sua primeira apresentação pela nova promotora. E talvez seja uma luta mais importante do que parece. Porque Johnny Fisher não precisa apenas vencer. Precisa começar a demonstrar que existe um grande peso-pesado por trás do fenômeno popular.

O cartel impressiona

Fisher chega à luta com: 14 vitórias, uma derrota e 12 nocautes.

É um percentual respeitável de vitórias antes do limite. Sua força é real. Seu tamanho é adequado à divisão. Sua agressividade produz espetáculo. E quando consegue impor pressão sobre um adversário vulnerável, Fisher pode ser destrutivo.

Alen Babic descobriu isso da maneira mais brutal. Em julho de 2024, Fisher precisou de apenas 36 segundos para destruí-lo. Naquela noite parecia que o Romford Bull estava pronto para atravessar rapidamente o segundo escalão dos pesados britânicos.

Então apareceu Dave Allen. E tudo mudou.

A primeira luta já havia deixado o aviso

Fisher enfrentou Allen pela primeira vez em dezembro de 2024, na Arábia Saudita. No papel, parecia mais um degrau. Na prática, tornou-se uma advertência.

Allen fez aquilo que os veteranos sabem fazer. Sobreviveu ao começo. Esperou. Quebrou o ritmo do jovem adversário. Começou a encontrar espaços. E derrubou Fisher no quinto round.

Depois de dez assaltos, Johnny recebeu a vitória por decisão dividida. Oficialmente, continuava invicto. Mas a discussão começou imediatamente.

Muita gente considerou que Dave Allen havia vencido. O resultado preservava o zero no cartel de Fisher. A luta, porém, havia retirado algo mais importante: a sensação de invulnerabilidade.

A revanche eliminou a dúvida

Em maio de 2025, encontraram-se novamente. Desta vez não houve papeletas. Allen atacou o corpo, pressionou e encontrou Fisher no quinto round com um poderoso gancho de esquerda. O Romford Bull caiu. E não conseguiu levantar-se a tempo.

Primeira derrota profissional. Primeiro nocaute sofrido. E uma pergunta inevitável: Johnny Fisher havia sido promovido mais rapidamente do que havia sido desenvolvido?

Essa é uma das armadilhas produzidas pelo sucesso comercial. Quando um boxeador começa a vender milhares de ingressos, surge a tentação de confundir popularidade com evolução técnica. Não são a mesma coisa.

O que falta?

Fisher possui características que não podem ser ensinadas facilmente. Força. Coragem. Agressividade. Presença. Confiança. Poder de punch. Mas o peso-pesado de alto nível exige muito mais. É preciso saber controlar a distância. Trabalhar atrás do jab. Variar a velocidade. Defender enquanto ataca. Administrar energia. Saber o que fazer quando o adversário resiste ao primeiro ataque. E, principalmente, encontrar uma segunda solução quando a primeira não funciona.

Foi exatamente nesse território que Dave Allen expôs Fisher. Allen não precisava ser mais jovem. Não precisava ser mais rápido. Precisava apenas saber mais.

O perigo da "Bosh Army"

Existe algo paradoxal na extraordinária torcida construída por Fisher. Ela é uma enorme vantagem. E talvez possa tornar-se também uma armadilha.

A chamada Bosh Army acompanha o lutador, compra ingressos e cria uma atmosfera fantástica. Pouquíssimos boxeadores conseguem estabelecer essa ligação com o público. Mas um lutador tão popular corre o risco de ser avaliado por aquilo que representa comercialmente, e não pelo que demonstra dentro das cordas.

O público grita. Os ingressos acabam. As redes sociais explodem. O pai rouba a cena. "Bosh!" Tudo funciona. Até aparecer um homem do outro lado do ringue que não participa da festa.

Dave Allen não participou.

Michael Pirotton não é Dave Allen

É necessário colocar a luta de sábado na perspectiva correta. Michael Pirotton chega com 12 vitórias, duas derrotas e seis nocautes. Não é considerado integrante da elite dos pesos-pesados. Nunca disputou um campeonato mundial. Nunca esteve perto da primeira prateleira da divisão. E é justamente por isso que esta luta interessa. Fisher deve vencê-la. Mas precisamos observar como.

Pirotton nunca foi derrubado ou nocauteado e chega a Londres afirmando que pode explorar as fragilidades que viu nas lutas contra Allen. O belga acredita que o caminho será superar Fisher na inteligência de ringue. Pode ser provocação promocional. Mas a pergunta é legítima. O que acontecerá se Pirotton sobreviver aos primeiros ataques? O que Fisher fará se não conseguir o nocaute cedo? Essa é a luta que queremos assistir.

Fisher precisa mostrar boxe

O próprio Johnny parece compreender a situação. Ele diz que a vitória é mais importante do que o nocaute. Essa frase merece atenção. Talvez o melhor cenário para seu desenvolvimento nem seja destruir Pirotton em 90 segundos. Seria impressionante. Seria divertido. A Bosh Army iria à loucura. Mas aprenderíamos pouco.

Quero ver Fisher usando o jab. Quero vê-lo trabalhando a distância. Quero observar sua defesa depois de atacar. Quero saber como reage quando recebe um golpe limpo. Quero vê-lo construir combinações em vez de simplesmente procurar uma pancada devastadora. E gostaria de descobrir se consegue permanecer disciplinado durante dez rounds. Isso nos diria mais sobre Johnny Fisher do que outro nocaute relâmpago.

Não falemos ainda em campeonato mundial

A divisão dos pesados possui uma capacidade quase irresistível de produzir exageros. Dois bons nocautes e aparece a expressão "futuro campeão mundial". Três vitórias e alguém começa a mencionar Usyk, Fury, Joshua ou qualquer outro nome do topo.

Fisher não precisa disso. Seu objetivo imediato deveria ser muito mais modesto e muito mais importante. Tornar-se um excelente peso-pesado britânico.

O campeonato britânico seria um passo natural. Depois Europa. Depois adversários de nível internacional. Somente então poderemos descobrir se existe material para algo maior. Pular essas etapas seria cometer novamente o erro de confundir mercado com desenvolvimento.

Uma nova fase

Existe também uma mudança importante fora do ringue. Fisher assinou com a Zuffa Boxing. Sua estreia será transmitida pela Sky Sports. Ele continua possuindo aquilo que sempre teve: público.

Agora começa uma nova etapa promocional. É uma oportunidade para reconstruir sua progressão.

A derrota para Dave Allen não precisa ser encarada como prova de que Fisher fracassará. Pode transformar-se exatamente no contrário. Pode ter sido a luta de que precisava. Muitos pesos-pesados melhoraram depois de perder. A questão é saber o que aprenderam com a derrota.

Mais do que "Bosh

Johnny Fisher tem apenas uma derrota. Possui 12 nocautes em 14 vitórias. Arrasta uma torcida que muitos campeões mundiais gostariam de possuir. É jovem para os padrões dos pesados. E continua sendo um dos personagens mais interessantes do boxe britânico.

Tudo isso é verdade. Mas Dave Allen também nos ensinou alguma coisa. Popularidade não bloqueia golpes. Os seguidores não melhoram a defesa. Ingressos vendidos não vencem rounds. E gritos de "Bosh!" não resolvem problemas técnicos.

No sábado, diante de Michael Pirotton, Johnny Fisher começará outra vez. Talvez destrua o belga rapidamente. Talvez precise trabalhar durante dez rounds. Pouco importa.

O que realmente precisamos descobrir é se o homem que retornou depois da primeira derrota é um boxeador melhor do que aquele que caiu diante de Dave Allen. Porque o Romford Bull já provou que consegue ser uma atração. Já provou que consegue vender. Já provou que consegue nocautear.

Agora começa a parte mais difícil. Provar que é mais do que popularidade.

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