ERISLANDY LARA X TIM TSZYU: AOS 43 ANOS, O VELHO MESTRE CUBANO AINDA TEM LIÇÕES A ENSINAR?

Por Frank de Moraes Boletim do Boxe — 13 de outubro de 2026
Aos 43 anos, Erislandy Lara continua fazendo aquilo que tantos adversários tentaram impedir ao longo de quase duas décadas: permanecer entre os campeões mundiais.
O cubano, nascido em Guantánamo, defenderá seu cinturão dos médios da Associação Mundial de Boxe (WBA) contra o australiano Tim Tszyu, de 31 anos, numa luta anunciada oficialmente nesta terça-feira, 13 de outubro. O combate será realizado na Austrália, provavelmente no final de novembro. A data exata, a cidade e a arena ainda não foram divulgadas.
Será um encontro de gerações, mas também de escolas.
Lara representa uma tradição de boxe construída sobre disciplina defensiva, precisão, controle de distância e inteligência tática.
Tszyu pertence a uma geração mais agressiva, que procura impor pressão, volume de golpes e desgaste físico.
Um pretende transformar a luta num problema de geometria. O outro quer transformá-la numa batalha. E essa diferença promete ser o elemento central de um confronto que vale muito mais do que um cinturão.
O homem que aprendeu a vencer sem desperdiçar golpes
Erislandy Lara nasceu em 11 de abril de 1983, em Guantánamo, Cuba. Formado na extraordinária escola amadora cubana, destacou-se internacionalmente antes de deixar o país e iniciar sua carreira profissional em 2008.
A transição não foi simples. O boxe profissional exigia uma adaptação importante: mais assaltos, adversários capazes de suportar longos períodos de pressão e um sistema de julgamento nem sempre favorável aos lutadores essencialmente defensivos.
Lara precisou modificar alguns aspectos de seu estilo, mas preservou aquilo que havia aprendido desde a juventude. Seu boxe sempre foi construído sobre uma ideia fundamental: fazer o adversário errar antes de castigá-lo.
Canhoto, utiliza o jab de direita para controlar a distância e preparar sua esquerda reta, lançada frequentemente no momento em que o oponente avança. Seu jogo de pernas permite criar ângulos e sair da linha de ataque.
Quando executa esses movimentos com precisão, Lara transforma o ringue num espaço desconfortável para qualquer adversário. Não é necessário que lance dezenas de golpes para controlar um assalto. Basta que acerte os mais importantes e impeça o adversário de estabelecer seu ritmo. Essa capacidade explica, em grande parte, sua extraordinária longevidade.
Uma carreira construída contra grandes adversários
O cubano enfrentou alguns dos nomes mais importantes de sua geração.
Em 2013, protagonizou uma luta duríssima contra Alfredo Angulo. Foi derrubado duas vezes, mas reagiu e venceu por nocaute técnico no décimo assalto. No mesmo ano, derrotou Austin Trout por decisão unânime.
Em 2014, enfrentou Saúl "Canelo" Álvarez. A luta terminou com vitória do mexicano por decisão dividida, num resultado que provocou discussões entre analistas e torcedores. Lara demonstrou excelente movimentação e capacidade de evitar os ataques de Canelo, mas sua baixa atividade ofensiva em determinados momentos contribuiu para a derrota nos cartões.
Em 2018, perdeu por decisão dividida para Jarrett Hurd, depois de doze assaltos intensos. A luta foi especialmente reveladora. Lara demonstrou que podia aceitar confrontos físicos, mas também deixou evidente que sua resistência não era ilimitada.
Posteriormente, enfrentou Brian Castaño, Danny Garcia e outros adversários importantes.
Ao longo dessa trajetória, conquistou títulos mundiais em duas categorias: super meio-médios e médios.
Agora, com 43 anos, apresenta um cartel de 32 vitórias, três derrotas e três empates, com 19 nocautes.
O segredo da longevidade
No boxe, a idade não é apenas um número. Ela se manifesta na recuperação entre os treinamentos, na velocidade das pernas, nos reflexos defensivos e na capacidade de manter intensidade durante doze assaltos.
Um boxeador de 43 anos não pode ignorar essas limitações. Mas Lara possui uma vantagem importante: seu estilo nunca dependeu exclusivamente da velocidade. Ele aprendeu a antecipar movimentos. Sabe reconhecer os sinais que antecedem um ataque, calcular a distância necessária para evitar um golpe e responder sem desperdiçar energia. É uma forma de inteligência adquirida ao longo de milhares de horas de treinamento e centenas de assaltos.
Entretanto, há um detalhe que merece atenção. O cubano tem lutado pouco.
Desde que conquistou o cinturão dos médios da WBA, em maio de 2021, contra Thomas LaManna, realizou apenas quatro defesas bem-sucedidas. Sua última apresentação aconteceu em dezembro de 2025, quando derrotou Johan Gonzalez por decisão unânime.
O longo intervalo entre os combates representa uma preocupação legítima.
A experiência pode compensar parte da perda de velocidade. Mas não elimina os efeitos da inatividade. E Tim Tszyu certamente tentará explorar essa circunstância.
Tim Tszyu: um sobrenome famoso e uma carreira própria
Tim Tszyu nasceu em Sydney, em 2 de novembro de 1994. É filho de Kostya Tszyu, um dos maiores super leves da história, campeão mundial indiscutível e integrante do Hall da Fama Internacional do Boxe.
Carregar esse sobrenome representa uma responsabilidade considerável. Desde o início da carreira, Tim foi comparado ao pai. Entretanto, desenvolveu características próprias.
É um boxeador ofensivo, que procura trabalhar atrás do jab, encurtar a distância e lançar combinações contundentes. Possui boa técnica, mas sua principal característica é a disposição para avançar e disputar o centro do ringue.
Conquistou o cinturão mundial dos super meio-médios da WBO, mas também conheceu momentos difíceis. Perdeu para Sebastian Fundora e sofreu uma derrota por nocaute técnico diante de Bakhram Murtazaliev. Esses resultados levantaram dúvidas sobre sua capacidade de permanecer entre os melhores.
Tszyu reagiu. Em julho de 2026, derrotou Errol Spence Jr. por decisão unânime, na Austrália, numa apresentação que demonstrou sua recuperação competitiva. A vitória foi importante, embora seja necessário considerar que Spence retornava depois de um longo período de inatividade.
Tszyu chega agora com 28 vitórias e três derrotas, incluindo 18 nocautes, segundo os registros atuais da Premier Boxing Champions e da revista The Ring. Aos 31 anos, procura conquistar um título mundial numa segunda categoria. E pretende fazê-lo diante de um dos mais experientes campeões ainda em atividade.
A presença de Jeff Fenech
Outro elemento interessante é a participação de Jeff Fenech na preparação do australiano.
Fenech foi campeão mundial em três categorias e tornou-se uma das figuras mais respeitadas da história do boxe australiano. Sua presença no corner de Tszyu poderá ser especialmente importante diante de um adversário como Lara.
Fenech conhece os problemas provocados por boxeadores que utilizam a movimentação defensiva para frustrar adversários ofensivos. A questão será transformar esse conhecimento em soluções práticas.
Tszyu não poderá simplesmente perseguir Lara durante doze assaltos. Precisará cortar o ringue, impedir as saídas laterais e atacar o corpo para reduzir a mobilidade do cubano. O próprio australiano reconheceu, no anúncio da luta, que Lara é um adversário tecnicamente difícil e que tentará transformar o combate numa partida de xadrez.
A comparação é perfeita. E, como acontece no xadrez, avançar sem planejamento pode significar entregar a iniciativa ao adversário.
O confronto técnico: a escola cubana contra a pressão australiana
DISPUTA DO TÍTULO MUNDIAL WBA — PESO MÉDIO (72,57 KG)
Erislandy Lara (32–3–3, 19 nocautes) • 43 anos
Canhoto • Campeão mundial
Tim Tszyu (28–3, 18 nocautes) • 31 anos
Ortodoxo • Desafiante
Austrália — cidade a confirmar
Combate anunciado em 13 de outubro. Data e local exatos ainda estão pendentes.
A primeira batalha acontecerá na distância. Lara precisará impedir que Tszyu consiga aproximar-se com frequência. Para isso, deverá utilizar o jab, os deslocamentos laterais e sua esquerda reta.
O australiano, por sua vez, precisará pressionar sem se precipitar. Se avançar em linha reta, oferecerá ao cubano exatamente aquilo que ele procura: um adversário previsível.
A segunda batalha acontecerá no corpo. Tszyu deverá tentar atingir as costelas e o abdômen do campeão, diminuindo gradualmente sua capacidade de movimentação. Esse trabalho poderá ser especialmente importante na segunda metade do combate.
A terceira batalha será psicológica. Lara sabe frustrar os adversários. Faz o oponente errar, desperdiçar golpes e perder a paciência. Tszyu precisará conservar a disciplina mesmo quando perceber que seus ataques não estão produzindo resultados imediatos.
Quem conseguir impor seu ritmo estará muito próximo da vitória.
O perigo dos primeiros assaltos
Não acredito que Tszyu deva começar a luta com uma ofensiva descontrolada. Seria um presente para Lara.
O cubano é particularmente eficiente contra adversários que avançam sem preparação. Sua esquerda reta continua sendo uma arma perigosa.
O australiano deverá utilizar fintas, variar os ataques e procurar o corpo antes de tentar golpes mais contundentes na cabeça.
Lara, por sua vez, precisará estabelecer respeito desde os primeiros minutos. Se permitir que Tszyu avance sem encontrar resistência, poderá ser obrigado a lutar constantemente próximo às cordas. E esse é um cenário perigoso para um campeão de 43 anos.
Os últimos assaltos poderão decidir tudo
Aqui está o aspecto que mais me interessa. Se Lara conseguir controlar os primeiros seis assaltos, poderá construir vantagem suficiente para obrigar Tszyu a assumir riscos. Mas o que acontecerá se o australiano mantiver pressão intensa até o décimo, 11º e 12º rounds?
Será que as pernas do cubano responderão?
Será que conseguirá conservar a precisão dos contragolpes?
Ou a idade e a inatividade começarão a cobrar seu preço?
Essas perguntas não possuem respostas antecipadas.
Aos 43 anos, Lara continua campeão mundial porque soube preservar recursos técnicos extraordinários. Entretanto, Tszyu representa um desafio diferente daqueles que o cubano enfrentou recentemente.
O australiano possui juventude, preparação física e motivação para disputar o título diante de sua própria torcida. A vantagem de lutar em casa também poderá contribuir para que mantenha a iniciativa nos momentos difíceis.
A questão dos adversários recentes
É necessário fazer uma observação. Lara permanece campeão, mas suas defesas recentes não oferecem uma medida definitiva de sua capacidade atual contra um desafiante de elite em plena atividade. Derrotou Gary O'Sullivan, Michael Zerafa, Danny Garcia e Johan Gonzalez.
São vitórias legítimas. Entretanto, o nível de exigência e as circunstâncias desses combates variaram consideravelmente.
Por isso, Tszyu poderá representar o teste mais revelador de sua atual condição física e técnica.
O mesmo raciocínio vale para o australiano. Sua vitória sobre Errol Spence Jr. foi expressiva, mas Spence retornava depois de quase três anos afastado dos ringues. Derrotar Lara será um desafio diferente. O cubano possui experiência específica contra adversários que procuram pressioná-lo. Não será suficiente repetir a estratégia utilizada diante de Spence.
O prognóstico do Frank
Vejo uma luta equilibrada e extremamente interessante do ponto de vista tático.
Se estivéssemos analisando Lara em sua melhor fase, eu o consideraria favorito. Sua inteligência defensiva, precisão e capacidade de administrar os assaltos seriam vantagens importantes. Mas estamos em 2026. Lara tem 43 anos e apresenta longos intervalos entre as lutas.
Tszyu possui 31 anos, vem de três vitórias consecutivas e parece adaptado à categoria dos médios. Por isso, considero Tim Tszyu ligeiramente favorito, principalmente pela juventude e pela possibilidade de impor pressão nos assaltos finais.
Meu prognóstico inicial é de vitória do australiano por decisão, numa luta em que Lara poderá vencer vários dos primeiros rounds. Entretanto, não descartaria uma vitória do cubano por pontos.
Se conseguir estabelecer a distância e impedir que Tszyu trabalhe o corpo, Lara poderá oferecer mais uma demonstração de sua extraordinária inteligência pugilística.
Não espero um confronto fácil para nenhum dos dois.
A última lição do mestre?
Erislandy Lara pertence a uma geração de boxeadores que aprendeu a valorizar cada movimento. Não desperdiçar golpes. Não aceitar trocas desnecessárias. Não confundir agressividade com eficiência.
Sua carreira demonstra que o boxe é muito mais do que velocidade e potência. É também percepção, antecipação, disciplina e capacidade de interpretar o adversário.
Tim Tszyu representa a força de uma nova geração. Possui ambição, energia e disposição para enfrentar um campeão que muitos adversários preferiram evitar.
O australiano procura conquistar seu segundo título mundial em categorias diferentes.
O cubano deseja demonstrar que ainda possui condições de permanecer no topo.
Será um encontro entre dois momentos da vida esportiva.
Um boxeador procura consolidar seu futuro. O outro procura prolongar um passado extraordinário. E talvez esteja justamente aí a beleza desse confronto.
Aos 43 anos, Erislandy Lara já ensinou muitas lições ao mundo do boxe.
A pergunta é se Tim Tszyu conseguirá aprender a última delas sem perder o cinturão de vista.
Frank de Moraes Boletim do Boxe — 13 de outubro de 2026
Fontes principais: The Ring — Confirmação do combate; Fox Sports Australia — Anúncio e declarações; Premier Boxing Champions — Carreira de Erislandy Lara; Premier Boxing Champions — Vitória de Tszyu sobre Spence.
