DALTON SMITH X ALBERTO PUELLO: O CAMPEÃO VENCEU, MAS NÃO CONVENCEU INTEIRAMENTE

Britânico conserva o cinturão mundial WBC dos super leves numa decisão dividida em Sheffield. O dominicano oferece resistência e deixa aberta a discussão sobre uma revanche.
Por Frank de Moraes — 25 de outubro de 2026
Há vitórias que consagram um campeão. Outras preservam seu título, mas deixam perguntas que somente o próximo combate poderá responder.
A vitória do britânico Dalton Smith sobre o dominicano Alberto Puello, na noite de sábado, 24 de outubro, em Sheffield, pertence à segunda categoria.
Diante de sua torcida, na Utilita Arena, Smith manteve o cinturão mundial WBC dos super leves, categoria até 63,5 quilos, depois de doze assaltos intensamente disputados.
O resultado, por decisão dividida, foi suficiente para conservar sua invencibilidade. Mas não representou uma demonstração inequívoca de superioridade.
Puello, antigo campeão mundial, mostrou que continua sendo um adversário extremamente difícil. Sua experiência, a guarda canhota e a capacidade de administrar a distância criaram problemas que Smith nem sempre conseguiu resolver.
O britânico venceu. Mas não dominou.
Um combate de pequenas diferenças
A luta apresentou uma disputa interessante entre dois boxeadores capazes de contra-atacar com precisão.
Smith, de guarda ortodoxa, procurava encontrar espaços para sua direita. Puello, canhoto e mais alto, trabalhava com golpes retos, movimentação e controle da distância.
O dominicano começou bem, aproveitando a dificuldade do campeão para estabelecer seu ritmo. Smith encontrou melhores oportunidades nos assaltos seguintes, especialmente quando conseguiu antecipar os ataques do adversário.
Mas Puello não se deixou intimidar.
Na parte intermediária, passou a utilizar com maior frequência a esquerda e obrigou o britânico a procurar alternativas.
Nenhum dos dois estabeleceu domínio prolongado. Houve assaltos definidos por poucos golpes limpos, e a avaliação dependia da importância atribuída à precisão, à iniciativa e ao controle do ringue.
O décimo assalto e o perigo de perder o título
A partir da segunda metade da luta, a preocupação da torcida de Sheffield tornou-se compreensível.
Puello mantinha sua organização defensiva e não demonstrava sinais de desgaste capazes de facilitar o trabalho do campeão.
No décimo assalto, Smith sofreu um corte próximo ao olho direito, provocado por um choque acidental de cabeças.
O ferimento não o impediu de continuar, mas acrescentou uma dificuldade a uma luta que já estava bastante equilibrada.
Nos assaltos decisivos, ambos encontraram oportunidades. Smith procurou aumentar sua atividade ofensiva, enquanto Puello continuou respondendo com golpes retos e contragolpes.
O último gongo não produziu uma certeza absoluta sobre o vencedor.
E isso explica por que a leitura dos cartões foi acompanhada de tanta expectativa.
Os cartões revelaram o equilíbrio
115-113 (Kieran McCann e Jon Llona) e 112-116 (Ray Danseco)
Dois juízes consideraram Smith vencedor por sete assaltos a cinco. O terceiro viu Puello conquistar oito assaltos.
A diferença entre essas interpretações mostra como o combate esteve sujeito a avaliações distintas.
Não considero correto afirmar que houve um roubo. Também não seria razoável apresentar o resultado como uma vitória indiscutível do campeão.
Foi uma luta suficientemente equilibrada para admitir discussões legítimas sobre a pontuação.
Smith continua invicto — e isso tem importância
Há um aspecto que não deve ser esquecido.
Dalton Smith chegou ao título mundial em janeiro, quando derrotou o perigoso porto-riquenho Subriel Matías por nocaute no quinto assalto, em Brooklyn.
Agora, diante de Puello, precisou demonstrar qualidades diferentes.
Contra Matías, produziu uma vitória espetacular. Contra Puello, precisou suportar doze assaltos de tensão e resolver problemas táticos.
O resultado elevou seu cartel a 20 vitórias em 20 combates, com 14 nocautes.
Puello, por sua vez, passou a apresentar 25 vitórias e duas derrotas, com 11 nocautes.
A experiência adquirida em Sheffield poderá ser importante para Smith. Um campeão não precisa vencer todos os adversários com facilidade, mas precisa demonstrar capacidade de adaptação.
O britânico conseguiu conservar o cinturão. A dúvida é se sua adaptação seria suficiente contra um adversário ainda mais exigente.
E agora, Shakur Stevenson?
Depois da luta, Smith manifestou interesse na unificação contra Shakur Stevenson, detentor do cinturão WBO dos super leves.
Seu promotor, Eddie Hearn, também mencionou a possibilidade de realizar o confronto em Sheffield, eventualmente no estádio Hillsborough, casa do Sheffield Wednesday.
É uma proposta comercialmente atraente. Mas, esportivamente, merece cautela.
Stevenson apresenta movimentação defensiva, precisão e capacidade de administrar a distância que poderiam criar problemas consideráveis para Smith.
Puello já demonstrou como um canhoto experiente consegue dificultar a aproximação do britânico.
Stevenson, porém, possui características próprias e não deve ser tratado como uma simples versão mais talentosa do dominicano.
Smith precisaria construir uma estratégia específica para impedir que o americano controlasse o combate exclusivamente à distância.
Por enquanto, o encontro permanece uma possibilidade, sem contrato ou data confirmados.
Puello merece outra oportunidade
A derrota não diminui Alberto Puello.
O dominicano chegou a Sheffield com experiência de campeão mundial e saiu demonstrando que continua entre os principais nomes da categoria.
Sua atuação foi disciplinada. Não perdeu a organização diante da torcida adversária, encontrou soluções durante o combate e terminou com argumentos suficientes para contestar esportivamente o resultado.
Uma revanche seria perfeitamente justificável.
Entretanto, existe uma diferença entre uma revanche desejável e uma revanche obrigatória.
Smith poderá procurar uma unificação. Puello terá de reconstruir seu caminho até outra disputa mundial.
É uma consequência frequente das decisões apertadas no boxe profissional: o vencedor ganha novas oportunidades, enquanto o derrotado precisa provar novamente aquilo que já demonstrou no ringue.
O comentário do Frank
Confesso que gosto de observar campeões quando encontram dificuldades.
As vitórias espetaculares revelam talento, potência e confiança. As vitórias apertadas revelam outras características: capacidade de suportar pressão, disciplina e disposição para continuar trabalhando quando o adversário não permite que o plano inicial funcione.
Dalton Smith demonstrou algumas dessas qualidades. Mas sua atuação também deixou perguntas.
Conseguirá impor maior intensidade contra adversários que se movimentam bem? Encontrará soluções mais eficientes diante de canhotos tecnicamente refinados? Será capaz de controlar os assaltos sem depender de diferenças mínimas na pontuação?
Essas questões tornam uma possível luta contra Shakur Stevenson ainda mais interessante.
Não pretendo desvalorizar o triunfo de Smith. Vencer Alberto Puello, um antigo campeão mundial, é uma realização importante.
Mas também não considero que a vitória tenha colocado o britânico numa posição de superioridade incontestável entre os super leves.
Smith demonstrou que sabe vencer uma luta difícil. Ainda precisa demonstrar que consegue dominar um adversário do mais alto nível técnico.
Puello, por sua vez, perdeu oficialmente, mas preservou seu prestígio esportivo.
Em Sheffield, o cinturão permaneceu com o campeão da casa.
A discussão sobre quem foi o melhor boxeador da noite, entretanto, não terminou com a leitura dos cartões.
Dalton Smith venceu. Conservou o título. Manteve a invencibilidade. Mas Alberto Puello fez questão de lembrar que uma vitória não é necessariamente uma demonstração de superioridade.
E talvez seja justamente isso que torne o boxe um esporte tão fascinante.
Fontes de apuração: Sky Sports, BBC Sport, World Boxing Council e Fightnews, reportagens de 24 e 25 de outubro de 2026.
