Cinturões demais, lógica de menos: o caso Jadier Herrera e o problema crônico do Boxe

09/03/2026

Por Thomas Bull

6 de março de 2026

De tempos em tempos o Boxe produz uma decisão que faz até o observador mais experiente perguntar: isso faz algum sentido?

A mais recente vem do World Boxing Council e envolve o campeão interino Jadier Herrera. O lutador cubano, detentor justamente do cinturão interino da entidade, foi simplesmente ignorado quando chegou a hora de organizar a luta pelo título mundial vago.

Em vez de colocar o campeão interino na disputa — algo que deveria ser a lógica natural do sistema — o WBC decidiu ordenar a luta entre William Zepeda e Lamont Roach Jr..

A pergunta é inevitável: para que serve então o cinturão interino?

Historicamente, o título interino tinha um propósito simples. Ele era criado quando o campeão não podia defender o cinturão por um período prolongado. Nesse cenário, o campeão interino assumia o papel de substituto temporário e deveria ser o primeiro da fila para enfrentar o campeão ou disputar o cinturão caso ele fosse declarado vago.

Simples. Lógico. Coerente.

Hoje, porém, a realidade parece diferente. O campeão interino pode existir… mas não necessariamente terá prioridade quando o título ficar disponível.

O caso de Herrera mostra exatamente isso.

Se o cinturão interino não garante a disputa pelo título principal, ele passa a ser apenas mais um adereço em um sistema que já sofre com excesso de títulos.

O Boxe moderno vive um fenômeno que poderia ser chamado de inflação de cinturões.

Entre as quatro principais organizações — WBC, WBA, IBF e WBO — já não basta existir um campeão por categoria. Existem:

campeão mundial

campeão interino

campeão "regular"

campeão "super"

cinturões especiais

títulos "silver" ou equivalentes

Em algumas divisões, chega a haver quatro ou cinco campeões simultâneos.

O resultado é previsível: confusão para o público e perda de credibilidade para os próprios títulos.

Casos como o de Herrera alimentam outra suspeita recorrente no Boxe: a de que decisões nem sempre seguem critérios puramente esportivos.

Promotores, interesses comerciais, redes de televisão e negociações políticas frequentemente entram na equação quando uma luta de título é organizada.

Isso não significa que os lutadores escolhidos não mereçam suas oportunidades. Tanto Zepeda quanto Roach são nomes relevantes da divisão.

Mas a questão central permanece: se existe um campeão interino, por que ele não está lutando pelo título?

O Boxe continua sendo um dos esportes mais emocionantes do mundo quando o assunto é competição direta entre os melhores lutadores.

Mas decisões administrativas como essa acabam prejudicando a percepção pública do esporte.

Para o fã comum, a lógica deveria ser simples: quem vence as lutas importantes avança na fila e disputa o título.

Quando a hierarquia deixa de ser clara, o valor simbólico dos cinturões começa a se diluir.

O caso Jadier Herrera não é apenas um episódio isolado. Ele é mais um exemplo de um problema estrutural que acompanha o Boxe há décadas.

Enquanto as organizações continuarem multiplicando títulos e tomando decisões difíceis de explicar, a pergunta continuará ecoando entre fãs e analistas:

quem realmente é o campeão — e quem decide isso?

Se o Boxe quiser preservar o valor de seus cinturões, talvez seja hora de voltar a uma regra simples:

menos títulos, mais clareza e mais mérito esportivo.