CHICAGO TERÁ DOIS MUNDIAIS — SANDOVAL DEFENDE A COROA; SCHOFIELD E BAHDI JOGAM A INVENCIBILIDADE

Por Frank de Moraes
6 de Outubro de 2026
Chicago receberá no sábado, 10 de outubro, um daqueles programas que dispensam a necessidade de inventar rivalidades. Há cinturões. Há dois invictos frente a frente. Há um campeão mundial diante de um desafiante mexicano que bate forte. E há uma alteração de última hora que mudou completamente uma das principais lutas da noite.
No Wintrust Arena, Floyd Schofield e Lucas Bahdi disputarão o cinturão mundial vago da WBA dos leves. Antes deles, Ricardo Sandoval colocará seus títulos WBA e WBC dos moscas em jogo contra Sérgio "Yoreme" Mendoza.
Duas lutas de 12 rounds. Duas histórias bastante diferentes. E nenhuma delas parece confortável para o favorito.
SCHOFIELD x BAHDI — ALGUÉM PERDERÁ O ZERO
Floyd "Kid Austin" Schofield chega com 19 vitórias, nenhuma derrota e 13 nocautes.
Lucas "Prince" Bahdi apresenta 20-0, com 15 nocautes.
Não é apenas uma disputa de invictos. É um encontro entre dois homens que enxergam a luta como a porta de entrada definitiva para a elite de uma das categorias mais sofisticadas do boxe atual.
Schofield tem 24 anos. É rápido, explosivo e possui aquela confiança característica dos jovens que ainda não aprenderam a perder.
Bahdi tem 32.
Essa diferença de oito anos é importante. Schofield parece possuir maior margem para evolução. Bahdi, entretanto, chega ao combate como um boxeador mais maduro, fisicamente forte e suficientemente perigoso para transformar um erro numa catástrofe. E já demonstrou isso.
Sua vitória por nocaute sobre Ashton Sylve foi precisamente o tipo de resultado que muda a percepção sobre um lutador. Bahdi não precisava vencer daquela maneira. Venceu. Desde então deixou de ser apenas mais um invicto canadense.
SCHOFIELD NÃO DEVERÁ OFERECER UMA LUTA ESTÁTICA
Tecnicamente, Schofield possui ferramentas para controlar a luta. É mais rápido na entrada e na saída, trabalha bem com golpes isolados e combinações curtas e pode obrigar Bahdi a persegui-lo. O problema aparece quando "Kid Austin" se entusiasma.
Schofield gosta da luta. Às vezes gosta demais.
Contra adversários inferiores, permanecer alguns segundos adicionais na curta distância pode produzir espetáculo. Contra Bahdi, pode produzir uma queda.
O canadense tem 15 nocautes em 20 vitórias. Não precisa dominar cinco minutos para mudar uma luta. Precisa encontrar uma oportunidade. Por isso a disciplina de Schofield poderá ser tão importante quanto sua velocidade.
O TÍTULO QUE GERVONTA DEIXOU PARA TRÁS
Há ainda um componente simbólico. O cinturão WBA dos leves está vago e agora procura um novo dono.
Schofield aparece como uma das apostas americanas para ocupar espaço na renovação dos 61,2 kg. Bahdi pretende estragar o projeto. A WBA colocou Schofield como número 1 e Bahdi como número 2 de seu ranking, o que transformou o encontro numa solução bastante lógica para a vacância. No sábado saberemos quem sairá de Chicago não mais como promessa ou candidato. Mas como campeão mundial.
SANDOVAL IA ENFRENTAR COLLAZO
A segunda grande luta da noite possui uma história completamente diferente.
Ricardo Sandoval deveria enfrentar Oscar Collazo. Era uma luta fascinante. Collazo subiria duas categorias para desafiar Sandoval, numa tentativa ambiciosa de conquistar títulos em outro peso. Então veio a lesão. Collazo sofreu uma contusão na costela durante os treinamentos e saiu do card.
Entrou Sergio "Yoreme" Mendoza. E a substituição alterou completamente o problema apresentado ao campeão. Sandoval passou meses preparando-se para Collazo, um canhoto compacto e tecnicamente sofisticado. Agora encontrará um ortodoxo mexicano mais alto e com uma característica impossível de ignorar: 27 vitórias, 23 nocautes.
Sandoval teve pouco mais de duas semanas para adaptar sua preparação. Isso torna a defesa mais perigosa do que os cartéis podem sugerir.
SANDOVAL: O HOMEM QUE VENCEU TERAJI
Ricardo Sandoval tem 27-2, com 18 nocautes.
Sua credencial principal dispensa exageros. Em julho de 2025 foi ao Japão enfrentar Kenshiro Teraji e saiu com uma vitória por decisão dividida e os cinturões mundiais.
Agora fará sua primeira defesa. É tecnicamente mais completo que Mendoza.
Sandoval trabalha melhor as combinações, possui experiência de altíssimo nível e sabe boxear durante 12 rounds. Mas terá diante dele um adversário cuja principal arma é bastante simples de explicar: potência.
Mendoza sabe que provavelmente não ganhará uma competição puramente técnica contra Sandoval. Portanto, deverá tentar transformar o combate em outra coisa. Pressão. Trocação. Ataques ao corpo. E a esperança de que um golpe mude tudo.
MAS HÁ UM DETALHE NO CARTEL DE MENDOZA
Os 23 nocautes em 27 vitórias impressionam. Precisam, entretanto, ser colocados em contexto.
Mendoza vem de derrota por interrupção no segundo round contra Thanongsak Simsri, campeão IBF dos mini moscas, em abril no Japão. Agora, poucos meses depois, recebe uma oportunidade mundial em categoria superior. É um salto enorme.
Isso faz de Sandoval o homem mais experimentado para esse tipo de noite. Mas há também uma liberdade perigosa no desafiante substituto. Mendoza recebeu uma oportunidade que não esperava. Tem pouco a perder. E prometeu deixar "a alma no ringue" para tornar-se campeão mundial.
No boxe, homens nessas condições às vezes são particularmente desagradáveis.
O UNDERCARD TAMBÉM MERECE ATENÇÃO
O programa de Chicago não termina nas duas disputas mundiais.
O olímpico americano Jahmal Harvey, ainda no começo da carreira profissional, enfrenta Pedro Castaneda em oito rounds nos leves. Harvey está apenas em sua quinta luta profissional, com 4-0 e três nocautes, e continua sendo tratado como um dos projetos mais interessantes do boxe americano.
Nos superpenas, Jan Paul Rivera (16-0, 7 KOs) enfrenta Abraham Perfecto (14-2, 9 KOs) em dez rounds.
Nas preliminares há ainda um confronto que merece uma marca no caderno: Tristan Kalkreuth (17-1, 12 KOs) x Ivan Rosado (12-0, 9 KOs), dez rounds entre cruzadores. Rosado coloca a invencibilidade em risco e Kalkreuth tenta continuar reconstruindo a carreira depois de sua primeira derrota.
O peso-pesado olímpico americano Joshua Edwards (7-0, 6 KOs) enfrenta Craig Lewis, enquanto Grant Flores encara Mikey Dahlman nos médios. Portanto, vale chegar cedo.
DUAS LUTAS, DOIS TIPOS DE PERIGO
É isso que torna o sábado de Chicago interessante.
Schofield sabe exatamente quem enfrentará. Teve um camp inteiro para Bahdi. Estudou Bahdi. Treinou para Bahdi. E mesmo assim enfrentará um homem invicto capaz de nocauteá-lo.
Sandoval vive a situação oposta. Preparou-se para um adversário e receberá outro.
Era Collazo. Agora é Mendoza.
Um campeão pode estudar milhares de minutos de vídeo. Pode preparar estratégia, distância e movimentação. Mas há uma coisa para a qual nenhum vídeo oferece imunidade: um homem que chega inesperadamente à maior oportunidade de sua vida carregando 23 nocautes nas mãos.
Chicago terá dois campeonatos mundiais no sábado. Em Schofield x Bahdi, alguém perderá a invencibilidade. Em Sandoval x Mendoza, saberemos se a troca de adversário transformou uma primeira defesa de cinturão numa armadilha. E talvez seja justamente essa incerteza que faça deste um dos melhores programas do fim de semana.
