Chantelle Cameron vence Mikaela Mayer e reafirma seu lugar entre as grandes do boxe feminino

31/08/2026

Cristina Gallino

30 de Agosto de 2026

Britânica transforma pressão, trabalho no corpo e combate em curta distância em armas para derrotar a americana por decisão unânime e unificar três cinturões mundiais dos super-meio-médios

Chantelle Cameron voltou a demonstrar por que pertence à elite do boxe feminino mundial.

Na noite de sábado, 29 de agosto, na BP Pulse LIVE Arena, em Birmingham, a britânica derrotou Mikaela Mayer por decisão unânime após dez rounds e unificou os cinturões mundiais WBA, WBC e WBO dos super-meio-médios.

Os três jurados deram a vitória a Cameron: 97-93, 97-93 e 96-94.

A pontuação pode sugerir uma vitória relativamente tranquila. A luta, porém, contou outra história.

Foi intensa, física e tecnicamente interessante. E, principalmente, mostrou duas campeãs tentando impor concepções diferentes de combate.

Mayer começou a encontrar aquilo que procurava. Mais alta e favorecida pelo alcance, a americana trabalhou com o jab e procurou manter Cameron numa distância em que pudesse golpear sem permanecer durante muito tempo na zona de resposta da britânica.

Era o caminho lógico.

Cameron precisava atravessar essa distância e atravessou.

Com o passar dos assaltos, a britânica começou a reduzir os espaços. Em vez de perseguir Mayer desordenadamente, manteve pressão constante, aproximou-se progressivamente e passou a transformar as trocas em combates mais longos.

A luta começava a mudar de natureza.

Mayer ainda conseguiu acertar bons golpes de média e longa distância, mas já não terminava as ações quando desejava. Depois do jab americano frequentemente vinha a resposta de Cameron.

E, quando Cameron entrava, permanecia trabalhando.

Foi aí que a britânica começou a construir sua vitória.

A partir da metade da luta, o ataque ao corpo ganhou importância. Cameron alternava os golpes na cabeça com ataques embaixo e obrigava Mayer a permanecer nas trocas.

Era exatamente o cenário que mais favorecia a campeã da WBO.

Mayer precisava de espaço. Cameron queria congestionamento.

E cada vez mais a luta acontecia onde Cameron desejava.

A americana jamais deixou de competir. Sua técnica continuou produzindo bons momentos e houve rounds suficientemente equilibrados para explicar algumas divergências individuais entre os jurados.

Mas havia uma diferença importante. Mayer frequentemente precisava reconstruir sua distância. Cameron precisava apenas continuar avançando.

Nos rounds finais, a batalha tornou-se ainda mais dura.

Mayer apresentava sangramento no nariz por volta do oitavo assalto. Cameron sofreu um corte próximo ao olho esquerdo no nono. Nenhuma das duas recuou.

O décimo round sintetizou a luta: duas campeãs cansadas, marcadas pelo combate e ainda dispostas a disputar cada troca até os segundos finais.

Quando soou o último gongo, Cameron havia conseguido aquilo que parecia indispensável desde o início: transformar uma luta potencialmente favorável ao boxe de longa distância de Mayer numa batalha de pressão e volume.

Os cartões confirmaram sua superioridade.

A vitória leva o cartel de Chantelle Cameron a 23 vitórias e apenas uma derrota, com oito nocautes. Mikaela Mayer passa a 22 vitórias e três derrotas, com cinco nocautes.

Mais importante que os números, porém, é aquilo que Cameron acrescenta ao currículo.

A britânica já havia sido campeã mundial indiscutível dos super leves e possui uma vitória histórica sobre Katie Taylor — continua sendo a única mulher que conseguiu derrotar profissionalmente a extraordinária irlandesa.

Agora, aos 154 libras, Cameron volta a reunir três cinturões importantes e fez isso derrotando outra das melhores boxeadoras de sua geração.

Mayer também sai da luta sem ter sua posição na elite seriamente diminuída.

Foi competitiva, teve bons momentos e mostrou que uma revanche não seria mera repetição comercial do primeiro encontro. Existem ajustes técnicos claros que poderiam modificar uma segunda luta. O principal deles talvez seja impedir que Cameron prolongue as trocas depois de atravessar o jab.

Mayer precisa fazer a adversária pagar pela entrada e, imediatamente, recuperar a distância. Permanecer na curta distância significa aceitar o terreno em que Cameron trabalha melhor.

E existe uma boa possibilidade de vermos esse quebra-cabeça novamente.

Depois da luta, as duas falaram sobre uma revanche, e Cameron acrescentou uma proposta particularmente interessante: gostaria que o segundo combate fosse disputado com rounds de três minutos. Seria uma variável fascinante.

Rounds mais longos poderiam beneficiar a pressão de Cameron, dando-lhe mais tempo para trabalhar depois de encurtar a distância. Mas também exigiriam maior administração física e ofereceriam a Mayer mais segundos para reconstruir seu boxe de fora.

É discussão para outro dia.

O que Birmingham mostrou neste sábado foi suficiente.

Mikaela Mayer possuía argumentos técnicos para vencer.

Chantelle Cameron encontrou argumentos competitivos para impedi-la.

Pressionou sem abandonar a técnica, trabalhou o corpo, encurtou a distância e, sobretudo, recusou-se a permitir que Mayer determinasse como a luta deveria ser disputada.

Existem vitórias construídas por um golpe. Outras, por uma estratégia.

A de Chantelle Cameron foi construída metro a metro, à medida que retirava de Mikaela Mayer aquilo de que a americana mais precisava: espaço.

Quando não havia mais espaço suficiente para Mayer boxear como pretendia, aquela já era a luta de Cameron.

E Chantelle Cameron dificilmente perde quando consegue fazer a adversária lutar a sua luta.

Share