AMANDA SERRANO: A ÚLTIMA CAMINHADA DE UMA MULHER QUE MUDOU O BOXE

28/10/2026

Por Frank de Moraes | 28 de outubro de 2026

No dia 9 de janeiro de 2027, quando Amanda Serrano atravessar pela última vez o caminho que separa os vestiários do ringue, o boxe feminino estará se despedindo de uma de suas maiores protagonistas. A porto-riquenha escolheu sua própria terra para encerrar uma carreira extraordinária, marcada por títulos mundiais em sete categorias, recordes históricos e uma batalha permanente pelo reconhecimento das mulheres em um esporte que, durante décadas, lhes ofereceu muito menos oportunidades do que aos homens. Sua adversária será a australiana Skye Falzon, mas o significado daquela noite ultrapassará o resultado de uma luta.

O anúncio foi oficializado nesta quarta-feira, 28 de outubro, pela Most Valuable Promotions, empresa responsável pela organização do espetáculo denominado The Last Walk — A Última Caminhada. O palco será o Coliseo de Puerto Rico José Miguel Agrelot, em San Juan, onde Serrano defenderá os cinturões mundiais dos penas da Associação Mundial de Boxe (WBA) e da Organização Mundial de Boxe (WBO). A transmissão está anunciada pela DAZN.

Aos 38 anos, Amanda Serrano apresenta um cartel de 50 vitórias, quatro derrotas e um empate, com 32 triunfos por nocaute. Os números impressionam, mas não explicam inteiramente sua importância. Sua trajetória representa uma transformação profunda na maneira como o boxe feminino passou a ser visto, promovido e remunerado.

Nascida em Carolina, Porto Rico, e criada no Brooklyn, em Nova York, Serrano iniciou sua carreira profissional em 2009. Naquela época, as oportunidades para as mulheres eram limitadas. As bolsas frequentemente eram pequenas, os combates apareciam nas partes menos importantes dos programas e a televisão demonstrava pouco interesse pelas competições femininas.

Amanda precisou conquistar espaço em um ambiente que ainda resistia a reconhecer o valor de suas atletas. Com a orientação de Jordan Maldonado, seu treinador e empresário, construiu uma carreira baseada na atividade constante, na disposição para enfrentar adversárias de diferentes categorias e em uma agressividade ofensiva que se tornaria sua marca registrada.

Canhota, dotada de excelente coordenação entre os golpes e de uma capacidade incomum de atacar o corpo e a cabeça em sequência, Serrano desenvolveu um estilo particularmente atraente para o público. Sua pressão não dependia exclusivamente da força. Era sustentada pelo posicionamento, pela variedade de combinações e pela habilidade de manter as adversárias sob ataque durante longos períodos.

Os resultados apareceram em diferentes divisões. A porto-riquenha conquistou campeonatos mundiais desde os super moscas até os super leves, estabelecendo um recorde feminino de títulos em sete categorias de peso, reconhecido pelo Guinness World Records.

Também se tornou a primeira pessoa de Porto Rico, entre homens e mulheres, a conquistar o campeonato mundial indiscutível no boxe profissional.

Entretanto, sua contribuição mais importante talvez não esteja representada por nenhum cinturão.

Durante anos, Serrano questionou as diferenças entre as regras aplicadas aos combates masculinos e femininos. Enquanto os homens disputavam campeonatos mundiais em até 12 assaltos de três minutos, as mulheres normalmente competiam em dez assaltos de dois minutos.

A porto-riquenha defendia que as atletas deveriam ter o direito de competir sob as mesmas condições, desde que respeitadas as exigências médicas e regulamentares. Não se tratava apenas de uma reivindicação simbólica. Assaltos mais longos alteram o planejamento técnico, a administração do esforço e as possibilidades de desenvolvimento de um combate.

Em outubro de 2023, contra a brasileira Danila Ramos, Serrano participou de uma histórica disputa unificada em 12 assaltos de três minutos. Posteriormente, chegou a abrir mão do cinturão WBC porque não concordava em retornar ao formato tradicionalmente exigido pelo organismo para as mulheres.

Foi uma decisão de grande significado. Uma campeã mundial renunciou voluntariamente a um título para defender um princípio.

Mas a história de Amanda Serrano não pode ser contada sem mencionar Katie Taylor.

Em abril de 2022, as duas protagonizaram um acontecimento histórico no Madison Square Garden, em Nova York. Pela primeira vez, uma luta feminina ocupava a atração principal de uma programação de boxe naquele cenário lendário.

Taylor venceu por decisão dividida, depois de dez assaltos intensos, mas o resultado esportivo foi apenas uma parte da importância do encontro. As duas demonstraram que o boxe feminino podia atrair multidões, produzir espetáculos de altíssimo nível e despertar interesse internacional comparável ao das grandes disputas masculinas.

A rivalidade continuou em novembro de 2024, quando voltaram a se enfrentar em uma programação de enorme audiência mundial. Taylor venceu novamente, desta vez por decisão unânime, em outro confronto marcado pela intensidade e pela controvérsia.

O terceiro encontro aconteceu em julho de 2025, novamente no Madison Square Garden, em uma programação inteiramente feminina. Taylor conquistou sua terceira vitória, encerrando uma trilogia na qual os resultados favoreceram a irlandesa, mas o reconhecimento histórico pertence às duas.

Foram adversárias dentro do ringue e parceiras involuntárias na transformação do esporte.

Katie Taylor demonstrou que uma campeã olímpica poderia transportar seu prestígio para o profissionalismo. Amanda Serrano provou que uma atleta formada no circuito profissional, sem a mesma projeção olímpica, também poderia conquistar reconhecimento mundial e tornar-se uma atração principal.

Juntas, ajudaram a modificar a percepção do público, das emissoras e dos promotores.

A despedida de Serrano também oferece a possibilidade de um último recorde.

Em maio de 2026, a porto-riquenha derrotou Cheyenne Hanson por interrupção no segundo assalto, alcançando 32 nocautes e igualando a marca histórica feminina de Christy Martin. Caso vença Skye Falzon antes do limite, estabelecerá uma nova referência de 33 vitórias por nocaute.

A adversária australiana, de 37 anos, apresenta um cartel de 12 vitórias e duas derrotas, com sete nocautes. Ocupa a quarta posição no ranking da WBA e possui títulos regionais conquistados ao longo de sua trajetória. Falzon começou relativamente tarde no boxe, aos 24 anos, e chega à maior oportunidade de sua carreira consciente da importância histórica do encontro.

Naturalmente, Serrano será a favorita. Sua experiência, qualidade técnica, potência e familiaridade com disputas de campeonato mundial representam vantagens consideráveis. Mas seria um erro tratar o combate como simples cerimônia de despedida.

Falzon terá a oportunidade de derrotar uma lenda em sua última apresentação. Essa motivação, somada à pressão emocional que inevitavelmente acompanhará a campeã, introduz elementos que precisam ser considerados.

A luta também será disputada em 12 assaltos de três minutos, exatamente o formato que Serrano defendeu durante boa parte de sua carreira. É uma escolha carregada de significado: a campeã pretende encerrar sua trajetória competindo sob as regras pelas quais tanto lutou.

A decisão de voltar a Porto Rico acrescenta outra dimensão à despedida.

Embora tenha construído grande parte de sua carreira nos Estados Unidos, Serrano jamais deixou de representar suas origens. A bandeira porto-riquenha acompanhou suas conquistas, e sua identidade nacional permaneceu como elemento central de sua trajetória.

Encerrar a carreira diante de seu povo, portanto, significa fechar um círculo iniciado muitos anos antes, quando uma jovem de Carolina sonhava conquistar espaço em um esporte que ainda oferecia poucas oportunidades às mulheres.

Existe também uma responsabilidade para aqueles que permanecerão no boxe depois de sua aposentadoria.

As conquistas de Amanda Serrano e Katie Taylor demonstraram que o boxe feminino possui qualidade técnica, capacidade de mobilização popular e potencial comercial. Entretanto, o crescimento da modalidade não estará garantido apenas porque duas grandes campeãs conseguiram superar barreiras históricas.

Será necessário manter investimentos, desenvolver novas atletas, ampliar a presença feminina nas grandes programações e assegurar que as conquistas econômicas e esportivas não desapareçam com a retirada de suas principais estrelas.

Nesse sentido, o legado de Serrano pertence também às boxeadoras que ainda procuram sua primeira oportunidade internacional, inclusive no Brasil.

A ascensão de Beatriz Ferreira, as ambições de Lila Furtado e o trabalho de tantas outras atletas brasileiras fazem parte de um cenário que se tornou mais favorável graças à determinação de pioneiras como a porto-riquenha.

Amanda não resolveu todos os problemas do boxe feminino. Nenhuma atleta poderia fazê-lo sozinha. Mas ajudou a modificar as condições em que as próximas gerações poderão construir suas carreiras.

Sua relação com a Most Valuable Promotions, fundada por Jake Paul e Nakisa Bidarian, também foi importante nesse processo. A empresa investiu na promoção de grandes combates femininos e transformou Serrano em uma de suas principais representantes. A campeã pretende continuar trabalhando pelo desenvolvimento da modalidade depois de abandonar as competições.

Assim, a aposentadoria não significará necessariamente seu afastamento do boxe.

Em 9 de janeiro, haverá cinturões em disputa, uma adversária determinada, a possibilidade de um recorde de nocautes e milhares de torcedores acompanhando a última apresentação de uma das maiores campeãs da história.

Mas haverá também algo que nenhuma estatística consegue medir.

A lembrança dos pequenos ginásios, das bolsas modestas, das dificuldades para conseguir adversárias e da longa caminhada até os grandes espetáculos internacionais.

A recordação das noites históricas contra Katie Taylor, das conquistas em sete divisões e das decisões tomadas em defesa de condições mais justas para as mulheres.

Quando a campainha anunciar o último assalto de sua última luta, Amanda Serrano estará encerrando uma carreira extraordinária.

O boxe feminino, entretanto, continuará carregando as marcas de sua passagem.

Porque algumas campeãs conquistam cinturões. Outras conquistam recordes. Amanda Serrano conquistou ambos — e ajudou a transformar o lugar das mulheres na história do boxe.

A última caminhada acontecerá em Porto Rico.

O caminho que ela abriu permanecerá.

Apuração editorial: comunicado oficial da Most Valuable Promotions, ESPN, Sky Sports e Boxing Insider, publicados em 28 de outubro de 2026.

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