A Revanche

Cristina Galino
25 de fevereiro de 2026
Dez anos depois de um dos eventos mais lucrativos e discutidos da história do boxe, a revanche entre Floyd Mayweather Jr. e Manny Pacquiao finalmente saiu do campo das especulações e ganhou forma oficial. Se o primeiro encontro foi vendido como "A Luta do Século", o segundo capítulo carrega um peso diferente: agora não se trata apenas de cinturões ou invencibilidade, mas de legado, narrativa histórica e da eterna comparação entre dois estilos que marcaram uma geração. Espero não se tratar de uma apresentação caça-fortuna como as que já aconteceram no Brasil.
Quando se enfrentaram pela primeira vez, em 2015, o mundo parou. Mayweather entrou invicto, dono de uma das defesas mais refinadas já vistas no esporte. Pacquiao, por sua vez, representava agressividade, volume de golpes e imprevisibilidade ofensiva. O resultado — vitória de Mayweather por decisão unânime — dividiu opiniões. Muitos reconheceram a superioridade tática do americano; outros lamentaram uma luta aquém da expectativa criada durante anos de negociações frustradas.
Agora, a revanche surge em um contexto completamente diferente. Ambos já ultrapassaram o auge físico, mas continuam sendo nomes globais, capazes de mobilizar milhões de fãs e cifras astronômicas. O embate deixa de ser apenas esportivo para se tornar também um espetáculo histórico, um reencontro de duas lendas vivas que ajudaram a moldar o boxe do século XXI.
Do ponto de vista técnico, a grande questão é: o que muda? Mayweather sempre construiu sua grandeza na leitura de tempo, na distância e na defesa quase impenetrável. Seu estilo econômico, baseado em precisão e controle de ritmo, envelhece melhor do que o de lutadores que dependem de explosão constante. Já Pacquiao, cuja carreira foi marcada por entradas rápidas em ângulos improváveis e combinações fulminantes, precisará administrar energia e escolher momentos com ainda mais inteligência.
Há também o fator psicológico. Pacquiao sempre afirmou que entrou lesionado na primeira luta, argumento que alimentou o desejo de revanche por anos. Mayweather, por outro lado, nunca demonstrou interesse esportivo em revisitar aquele capítulo — o que torna essa nova negociação ainda mais simbólica. Aceitar o desafio agora é, de certa forma, reconhecer que o público sempre quis uma conclusão mais definitiva.
Financeiramente, a revanche promete números expressivos, ainda que dificilmente repita o recorde absoluto de pay-per-view do primeiro confronto. A indústria mudou: novas plataformas de transmissão, acordos globais de streaming e uma audiência mais fragmentada transformaram o modelo de negócios. Mesmo assim, poucas marcas no boxe carregam tanto peso quanto Mayweather e Pacquiao.
No aspecto histórico, o resultado terá impacto direto na forma como ambos serão lembrados. Uma nova vitória consolidará Mayweather como o estrategista que decifrou seu maior rival duas vezes. Já um triunfo de Pacquiao reescreveria o final dessa rivalidade, oferecendo ao filipino uma redenção tardia e talvez a maior vitória simbólica de sua carreira.
Independentemente do desfecho, a revanche representa mais do que nostalgia. É um lembrete de uma era em que estilos contrastantes, personalidades fortes e negociações dramáticas dominavam o noticiário esportivo. Para os fãs, é a chance de revisitar uma rivalidade que transcende o ringue. Para o boxe, é a prova de que grandes histórias nunca morrem — apenas aguardam o momento certo para um novo capítulo.
